ANTIPOESIA

ANTIPOESIA
ANTIPOESIA

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

CANTO III - MEMÓRIAS DE EROS (I)



de todas vós vou aos poucos delineando rostos corpos a íntima profundidade das taças repletas do mais precioso dos néctares
nesta visita ao passado na desconstrução das imagens e dos sonhos sinto o hálito real do presente a percorrer a mente ébria        a febre de cada momento sem nomes        corpos tantos        incontáveis       
os vícios da boémia e de uma vida de desatino onde não morava o tédio com as suas farpas medonhas
cresceram em mim os lírios da devassidão as experiências fantásticas dos antigos romanos e dos bárbaros do norte        meretrizes filhas de boas famílias nobres damas casadas viúvas divorciadas e solteiras todas boas e más camas      
modelos ocos e estilistas da frivolidade     vulvas de oportunidade 
ah como me eram caros os prazeres da carne e como ainda hoje me apraz a luxúria 
durmo como e com quem quero fruto de árdua imaginação e firmeza de carácter        
tenho numa única mulher todas as mulheres do mundo        descida dos sentidos aos infernos ascensão do espírito ao paraíso sem passagem paga pelo pensamento ao purgatório
o meu corpo espraia-se para além do sonho        viagens interiores que se deslocam no espaço        a visitação da matéria original e dos prodígios milenares de tanta lascívia
imagens que se sucedem nas imagens que desfolho        que só eu vejo        palavras que se pregam ao papel branco da inocência manchando-o
indulgência dos anos a quem a si se basta e por se bastar tem tudo o que o mundo exterior pode ofertar ao tédio do já-visto e vivido.
amálgama de memórias e ilusões que vagueiam nas palavras soltas e derramadas neste leito que tanto tem de macio como de elevada calosidade  

de noite
despido
                   visto o teu corpo
como-te as entranhas

             e apenas porque é noite
             branda de veludo

na escuridão
         se tudo nos é permitido

        diz-me espelho meu 
   se alguém ama como eu


      tão vívidas e esparsas as lembranças de noites fulminantes 

o amor não se compra não se vende       talvez não exista        ou exista no sexo que pende do coração em lágrimas        pieguice dos poetas e dos romanceiros tristes 
quixotescas ilusões de cavaleiros sem montada


naquela tarde
sequiosa
fizemos amor 
nas margens
arenosas
do ribeiro

   tudo fizemos
já que amar
tudo consente
sem pecar

lavámo-nos
               em águas
               gélidas
               e 
               de costas 
               voltadas
               jurámos
               mão na mão

                       o que fazer
                       nos faltava

a separação

porque a paixão
também mata


o amanhã virá com as suas alegrias e tristezas
há uma chuva outonal de folhas variadas no jardim        o banco de granito tinge-se de verde
não podemos ficar      a lua esconde-se atrás do velho carvalho e uma brisa fria percorre o lago outrora povoado de peixes dourados
vamos        que os nossos corpos se unam no amplexo da eternidade 
     
      o agora      porquê desperdiçar o amor

      será que o sol nos irá encontrar aos dois num



aquele beijo
               foi 
                  só 
um beijo

        o primordial

                         criação do mundo
            na boca que se abriu
   língua à língua colada
lábios salivados
                 dentes suados

e eu que crescia
em mim      
dentro de ti

nesse desejo
                tão desejado


oiço o teu riso        sufoca-me a culpa e o remorso      em tantas noites me amaste sem quereres mais ninguém        
querias-me tanto que te bastava teres-me a teu lado
tinhas nas mãos brancas os laços da paixão
arrependo-me não do amor que te dei nas noites consumidas em segredo mas de te ter dado a esperança vã de eternamente te ter nos meus braços
nunca fui homem de uma só mulher
nunca me irei curar desta doença


      vidros gélidos 
      na casa de inverno
            a noite cai sobre 
            os seios pequenos 
            do vale
lá longe 
          um pastor 
                       assobia a flauta de cana

      os lençóis são os de ontem
             neles as tuas formas amarrotadas

      o cheiro da almofada branca
      varre a velha cama

      de olhos cerrados vejo-te
                                        inclinada

       os cabelos no meu pénis
       a boca amordaçada

               esperma que se derrama 
               num clitóris tumefacto


   quando as línguas se conhecem
   as salivas nascem quentes
   os seios erectos

   quando o membro cresce
   a vagina se humedece
   e espasmos a cruzam

   num movimento alado
   um corpo novo renasce
   das cinzas do passado


agora que te conheço
iludo o espaço

que vai dos seios aos joelhos
dos teus lábios aos artelhos

pernas que se abrem
desejo impresso na carne

espasmo violento
que do teu ventre
nasce sedento


o sopro da tua alma
no meu sexo
dissolve do mundo o espaço


falta-me o teu corpo
      a tua alma
      teus gritos
as amarras com que me sugas
      os rios de saliva
      os sorrisos e risos
de teus orgasmos
      os membros contorcidos
      as palavras silenciadas

  nesta tarde de outono
  faltas-me tu
  falta-me tudo


tudo é verde
nesta tarde infernal

as paredes
      a mantilha
a coberta
as uvas 
     da tua vinha
o sabor 
da tua boca
o odor 
da tua língua
a cor
do teu colo
a espuma
dessa gruta
tão macia
que ao mais
suave toque
estremece
se contrai
e rejubila

tudo é verde
neste instante

o olhar
que me alumia
o ar 
que me alimenta
o sexo
que me acaricia
o orgasmo
que me mata
e me dá vida


o vácuo das razões      a violência dos instintos      a espada que te trespassa 
eis o fogo da noite na fissura dos tempos
em toda a parte o centro do amplexo dos corpos      em toda a parte e em parte nenhuma
o espelho convexo
os dedos na tua boca      morde-os louca
o membro no teu rabo
morde a almofada de cristal abafando sons roucos      uivos de gozo imperceptíveis      a cabeça na cabeceira

não há nada que eu não queira


   deita-te

despe-te

amante

amiga

bica-me

sorve-me

lambe

chupa-me

dolente

macia

fode-me

alivia-me


o desejo

é o grito

a adaga da liberdade

hino ao sem-limite

a contradição

opaca insistência

de espasmos-sem-razão

o líquido viril

a voragem

navio gemente

na tempestade

do coração

negreiro vil

da cristandade

cinza

odor

luz

calor

  virtude e pecado

      com que te

     rasgo
pernas
pescoço
o ventre raso
e encostando-te
à parede
em súplicas de sede

tomo-te o vaso


despe-me a camisa

beija-me os braços

desata-me as calças

desce teus cabelos

une-os aos meus

com a rosa orvalhada
morde-me os lábios
inventa novos gestos
a língua descuidada
tão faminta tão desejada


és daquelas

muitas mulheres

de quem recordo o corpo e

esqueci o rosto

                  bebo o vinho

rejeito o mosto


nem sempre o que te apetece me apraz        por vezes o que te recreia me desagrada e o que quero rejeitas         mas à noite em sonhos quando o anjo do amor desce nem tu me enjeitas nem de ti fujo e os nossos corpos feitos um nada negam      fazem tudo

da tua boca
       nascem golfadas de azul
                         um azul tão macio
que é vício
               no ofício da arte de amar

    o pulso dos dias
    estagna nas tuas pernas redondas

      os gemidos do quarto
      afogam os orgasmos

         e nessa febre salivada
         há um mar imenso
tão meigo   desordenado   despido
        que ao grito do prazer
        se queda no tempo
                                   estagnado


desmaia a luz no quarto de hotel        conspurcado o ar do último hóspede        não sei quem        mesmo assim nado no teu corpo        viro e reviro-te        ponho e tiro        suspendo o orgasmo        e nessa loucura nesse desatino venho-me contigo



o frio veste-te de lã macia e aconchegante      mais macia a tua pele
no sossego da tarde aqueces-me a alma
os dedos vibram no meu corpo 
tristemente cai a noite        vais-te        mais bela do que nunca
beijo o ar perfumado e sonho com teu corpo dourado



naquele 
dia 
de chuva
foi na mesa 
de granito

abriste as pernas
perdi o siso

e sôfrego      indeciso
ora to metia      ora te consumia


essa franja

que serpenteia

entre o olho

e a sobrancelha

que tão suave

se meneia

entre a boca

e o meu falo

deixa-me mudo

deixa-me surdo

torna-me cego

sem que saiba

ou oiça

o urro
em que resvalo



estás tão triste 

moça 

nos portais 

dessa ermida  

                     
            todo o amor que não nos assiste faz dó        

                               mata o que sofre 

naufragante no mar cinzento da desventura        
não estejas

bebe vento 
bebe sol 
as estrelas do firmamento        

cobre o teu corpo com o meu lençol        
suga-me o alento        depois exausta adormece no meu ombro calma distendida saciada        a mão no meu ventre        desce em sonho até à haste erecta e florida 
enquanto ainda palpitam as rosas que dão sentido à vida


como são doces os muros intocados de cristal
as torres de marfim do mais torpe dos palácios
e plácidos os movimentos em ascensão

o rouxinol doirado
no parapeito lazúli
canta ao mundo
o orgasmo
que pelo toque
nasce
verde     tão verde
esverdeado e doce
grácil e
profundo



o colar
que usaste
nas noites quentes
à beira-mar

mão no peito
poisada
o anel azul
de noivado

teus olhos
azuis
inundam 
o coração
que me asfixia

lembrança do muito
amar
do tanto que te dei
e do outro tanto
que deixei de te dar

se a mim te ofereces
ou me apartas
e a outro preferes
já pouco me importa
que a vida é curta
o tempo escasso
e a saudade morta


ponho-te as mãos no peito

arrasto-as para as pernas

subo-as ao sexo

abraço o teu braço

teu joelho

teu pescoço

e rosto

enquanto tua boca

desce ao meu ceptro

ao céu exposto


sonho e o meu sonho é antigo e vejo-os        talvez me veja também a mim      não sei

estão velhos
susana

     mas não estão mortos

e à visão

do teu corpo

transfiguram-se os rostos


       agitam-se as mãos

e os sexos

    pelo tempo envelhecidos

renascem

erguem-se 

em terrível excitação


terras de vera cruz
onde o grande mar oceano
termina

a primeira coisa que vi
foram os montes
tão redondos
tão perfeitos
na areia da praia deserta

valeu a dor da viagem
a fome da jornada
a partida da pátria amada

perdi o que tinha
bens amores vontade
nasceu-me no coração
eterna saudade
morreu-me a paz 
e a calma

mas quando te vi
mais do que perdi
ganhei
tenho-te a ti
e uma nova alma


visito-te      nem sempre      o prazer das noites solitárias impede-me        há uma serenidade na minha casa que não encontro em lado algum
dispo-me enquanto tu já desnuda tamborilas com os dedos no leito      apresso-me
morre a paz e nasce o prazer de te comer por trás

eu dentro de ti
tu dentro de mim
assim te vejo assim me vi

nesse espelho te vês

fera adormecida por leito

com tua nudez te deleitas

e no meu coração lês

a dor que me sangra o peito

na ilusão do prazer

de quem não amas

e com quem te deitas


  na luz da casa deserta
contra fria parede
tua nudez
      emudece a sombra
        da alma púrpura
          que solitária te penetra
            e que na íntima tristeza
             da pele orvalhada
                não te sente a beleza



de costas                          te tocas
de costas                          consentes
de costas                          te prendes
de costas                          me negas

de teu corpo                      as pregas


nos 
umbrais 
do anseio
teus braços 
te envolvem
teus seios 
se erguem

corpo seminu
de pássaros 
cinzentos

crepuscular instinto

triste é a espera
da solidão
no incenso extinto
do fim de tarde


deponho 
um beijo
no teu hálito

a mão no teu peito
 e num cerimonial 
                   casto

num hábito 
  perfeito
        desço às pernas

que abro
de modo 
tão lento

num tão intenso 
       querer
que me perco

desfaleço
e sinto 
    como ninguém

de quem tendo
o que tem
mais nada ter quer


o punhal enterrado no corpo cobre os cortinados debruados a carmim
não há lucidez no prazer      na cegueira dos odores que se misturam em mares desfeitos
e há o leito dos mareantes      a palma da escuma        nunca constante
os corpos diferentes numa mesma alma


a língua rompe-se
na fissura do tempo

os lábios da vulva
apartam a madrugada

cheiras a canela
primavera molhada

toda tu és pressa
ajoelhada

boca de lua cheia
travo de rosmaninho

o teu hálito no meu peito


não és mulher 
és deusa

o ouro da manhã
nos teus cabelos

a mão branca e pura
na tua alma

no rosto o traço
da compaixão

aprendi a amar-te
em espírito

na imagem
na terna viagem

do sonho
donde nasce

o amor beatífico
que por ti tenho

e a mais ninguém
pelos deuses doado


em cada amante há um tecido bordado
que se rompe se desfia e desfaz
em cada amor acabado


      o cabelo apanhado
      os ombros
      a cintura fina
      as formas arredondadas

      viras-te de costas
      no velho sofá

      entregas-te
      no todo      em ti
      quero que sejas minha

          que gemas que grites
          que digas
          põe-mo por trás

            aperta-me as nádegas
            quero foder

como tu
nessa beleza nesse querer
poucas há


sentas-te de costas
as mãos 
nas minhas pernas

molhas-te
moves-te

na vagina um sorriso
na boca um gemido


corpo nu como no berço        elevado        belo e delgado
corpo que aguarda por túnica meio-coberto
ao desejo aberto


tenho saudades dos teus cabelos loiros
dos caracóis      novelos de lã pura
do teu corpo de sereia
lábios de cotovia

ah se eu pudesse
se não te tivesse perdido
cantava-te uma melodia
deitava-te na cama vazia

e noite dentro
umas vezes amava
outras fodia


visitam-me teus seios
erectos
perfeitos

e eu
nesta hora de dor
neste sentimento
de morte eminente

nesta angústia larvar 
de quem toda a fortuna perdeu
   por já te não poder amar


   a penumbra na vagina
        a sombra no pénis

      uma língua inteira
        os seios abertos

            o vestido na cadeira
            o espectro no espelho

                a oferenda que se receia
                nos braços que apertas

             os cabelos descobertos
             no ventre em que me acolhes

     os ombros redondos
     da vulva em movimento

  sémen que escorre
  lânguido e lento



amargurada tarde amorosa
deixaste os filhos em casa
o marido no trabalho

com eles
são tristes as horas que vives

pisas as ruas da cidade
cabisbaixa
perturbada

sem carinho 
que te alivie
sabre que te fenda

nem o anjo
do amor
te pode valer
em tão intenso
padecer

porque quando 
uma mulher chora
fá-lo chorar
a ele


eu sou a sede   a fome

sugamos e engolimos
esse desejo    
que nos consome

penetro-te sem pressa
tão devagar quanto a eternidade
nasci para te amar


degraus da tua fome marcam os seios nos caminhos desertos        lábios espessos  
nas mãos cheias de vento o riscado da tua gula      cabelos nos ombros dormentes
tempo de romãs em que me ergo
tempo de medo
o segredo do amor
naquilo que faço
e desfaço
ato e desato
desejo que nasce
no corpo em que nos dias renasço
ao longo das tuas pernas ato o chicote das tranças rubras   
desato o corpete        eis o teu ventre
a memória do sangue
o sabor das lâminas
o odor do vício
o abrigo

a floresta verde-ardente
em que escrevo
amo
peco
me venho
e fico


sabes bem como fazê-lo
enterrá-lo      metê-lo
a deslizar na vagina

um calafrio percorre-me
contrais-te
levas-me ao paraíso
e vens-te
no teu sorriso



uma flor 
aberta
outra 
a florir

um coração 
             que desperta
um sexo 
que se agita



de teu corpo conheço todos os lugares
as vértebras esguias        copas das árvores
ramagem florida de teus peitos
sulcos abertos no leito        os teus
o fogo do regaço        sagrado
mais abaixo a água nascente        escorrências das virilhas
cintura que se esgueira
que aperto e seguro
orgasmos de mil ilhas desertas
contracções e frémito
das palmeiras despovoadas do teu sexo


o perfume da transparência
nas formas arredondadas
é o sonho das experiências
há tanto tempo perdidas

não durmo
         não desisto
                       sonho 
acordado 
              contigo

esse corpo 
que se acaricia
que provoca 
as tuas mãos
passado 
que era delícia
e que hoje 
é ilusão

provocação que mata
   que mói 
   as entranhas
   deste ausente 
   que te ama

vagabundo 
               de terras estranhas
                de outros corpos
                outras sementes
                dum nada 
              que lhe valha


podeis ser amigas
podeis ser amantes

sois mulheres 
tristes e sozinhas

agora dois seres
que vivem enfeitiçados

dois corpos
que se gostam

que se alcançam
e se amam

que interessa
o que fazem

como fazem
e se o fazem

se mal se bem
a quem interessa

senão a elas
e a mais ninguém


aqui me deito
aqui te debruças
esfregas-me
com teus peitos
sorves o que rejeito
na explosão
do momento eleito


sonhei contigo
num verso cruel

tu viva
eu morto

incompreendida
saudosa

e eu
envolto em noite escura
sem te poder amar
sem amor viril
sem forças para um poema
que te possa doar

a memória das ondas no pontão
do meu pénis em erecção
colado à tua saia subida

tempestade na barra
uma sereia despida


o corpo é carne
         espaço que consome
         o que outra carne come

o corpo é ausência
       sonho em sono vivido
                               na invenção da permanência

é razão iludida
em vivência nobre e suja
é vida que se esvai das mãos

carne que asas busca
      no templo da escuridão
      razão vencida
que não deixa de ser razão


de ti

só tenho os seios

o silêncio

das palavras

nos olhos enfurecidos

mais me não é permitido

enganei-te      traí-te

é justo o castigo


a lama do rio
inunda os corações

o barco move-se
entre amarras

estás molhada
entre-pernas

a língua marítima
ilumina-se

recolhe-se
entre lanternas


o delírio dos corpos na sombra da tarde lembra com ternura inocente e pura a verdade da língua alada e da saliva de brando gosto que brota de tua boca e escorre pela vulva e pela virilha que esfregada se mancha

que posição é essa
que indecisão a tua
com que indiferença me feres
nessa nudez
de quem não está nua

afinal queres ou não

já minha alma 
não tenho

vivo e não sou ninguém
neste corpo solitário e vazio

vegeto no campo
na sujeira da cidade

onde há tanto 
e tão pouco

tantas as mulheres de rua
e eu sem ti 

nu 
neste ermo perdido



perdi o norte ao destino
assassinei o espírito e deixei-o a apodrecer no vale 
dos mortos
que me interessa a justiça e a misericórdia      
tenho as tuas formas por companheira
amemo-nos como animais inocentes na clausura de 
nossos quartos 
não há em lado algum paz tão verdadeira como a 
nossa


a meio da noite
insisto
arrasto-te a mão
ensino-te o caminho

inclino-me à taça
de que bebo
esse vinho
doce e aveludado

dou-te a mão
beijo-te os seios
sem saber 
se sonho acordado

ou se o sono
me sustenta
acordado a alma
em corpo alado


se fosse rude            primitivo 
                  grosseiro
         no que penso 
ao que vejo
não amaria 
nem teria paixões      
teria desejo e 
a cada dia seu afã 
seu prazer

em cada noite
uma mulher
talvez isso fosse     
talvez seja isso que eu seja


sois três      invertidas e deitadas 
de costas para mim voltadas      
     não sei se dormis se estais 
  acordadas se me enganais 
despertando em mim o 
anseio

escolho a do meio 
por me parecer a mais perfeita
e porque se a amar duas mãos tenho 
         as outras duas
         quero acariciar


dia do coração        amantes de filigrana do prazer prateado em que só nossas ocultas partes doiravam sol e pecado
na cama púrpura rendada
não sei        nem saberei se o teu corpo de âmbar
é sonho ou realidade mentira ou verdade

assim sentada      mantilha 
à cintura       os olhos em mim 
fixados       geras-me a dúvida       não sei 
não sei se me queres
se ofendida me rejeitas 
e à minha companhia 
preferes estar só 
sem ser amada


lembras-te da noite na ilha em que o sono nos não venceu      lembras-te das penetrações blandícias em posições sucessivas de me teres dito amo-te tanto não me deixes faz-me o que me fazes sempre   isso   isto e na madrugada corpo lavrado de prazer na glória exaltada saudaste o sol nascente com teus cabelos doirados alagados de suor      lembras-te
vá      fode-me mete-me esse caralho todo      dizias
o teu corpo tremia       caniços ao vento no canavial      o canto dos gemidos a luz dos gritos os desejos infindos      come-me essa cona o cu também deixa que te chupe sou tua de mais ninguém

na aragem do pinheiral a voragem dos corpos em cama de tenros fetos os rebentos aguados do roseiral abandonado às velhas parede da escola sem miúdos renascida nesse teu orgasmo doce violento e tão lento como estrela em céu cinzento que se repete a cada momento

acaricio-te as pernas neste carinho que devagar inventa o fascínio do sabor do teu peito        há sombras nas vidraças que se abrem sedentas à brisa da tarde
dá-me a tua língua teus dentes perfumados a mão em frenesim
deixa que tropece no teu sexo que te cheire e que te enrede      que te enleie
chama-me louco      sim      enquanto o meu súbito desejo em ti se implanta

toca-me

devagarinho

no peito

no ventre

no sexo

aperta-me

joelhos

coxas

braços

deixa

que te penetre

fundo

tu de costas

com as pernas

fechadas

eu

suspenso

eréctil

louco

do teu movimento

grita

grito

e agora

de bruços

para cima deitada

ou de lado

com teus dedos

prolongas

teu orgasmo

e meu espasmo

belos os corpos que se colam na unidade de múltiplos orgasmos  em sucessivos espasmos pelos dedos dos afectos tocados

são os teus ombros que mais aprecio      também esses cabelos que te correm pela fronte      olho-te a olhar-te e aguardo      o momento o tempo certo o fim da noite      o princípio do dia


tinhas os cabelos compridos encaracolados e negros a face trigueira e o sorriso ligeiro      lá fora fazia frio de inverno
na sala da braseira o regaço coberto pela mantilha deslizaste os teus dedos pelo meu pénis virgem
eras tão nova      e eu também
a tia dormia        ou fingia
fizeste-o como ninguém

e essa erecção foi tão forte
como nenhuma outra tive
nem terei até à morte

o corpo penetrado sem tempo

três cavalos brancos na lezíria

o vento sopra no meu peito
entre as pernas

na febre da vagina
no lençol de papel escrevemos nossos êxtases
o princípio e o fim das noites gementes
onde os corações se incendeiam

pétalas acompanham a lentidão da língua na flor dos lábios

inventámos as posições sem vereda      a sagrada pira
consumámos o grito surdo do orgasmo
silenciámos o universo na sua prepotência
e destruímos o pecado que do corpo nasce e no corpo respira


banhando-se juntas a pele de bronze no brilho da água
esponja que desce nas formas que se tocam
primeiro modo tímido e casto de olhares dedos seios
que aos poucos perdem o receio

       vem meu amor de hoje
         vem ver o sol-posto 
          beija-me o rosto
            que amanhã
             quem o sabe
              o dia é de outro

 põe-te de bruços 
  afasta os joelhos
   cresce-me o sexo 
    o anseio a vontade

     fecha-os cerra-os 
      bem cerrados
       envolve-me o pénis 
        desliza o rabo

         move-te engole-o
          tens três portas
           agora lambe-o 
            aperta-o depois

             como só tu sabes

               ejacula teu líquido
                branco como água
                treme grita contorce-te
                 suga-me a vida
                  alivia-me

morre a noite nasce o dia

na boca e na vagina
desejas o que desejo

um rio de prazer
um mar de beijos


  o prédio dormia

   vieram as duas
    pela calada da noite

     sem vozes ou gestos
      despiram-me

        bem sabiam
         ao que vinham



nesse amor interdito
enovelam-se as línguas
em terno pecado



os meus dias são redondos e magros como mirtilos silvestres        framboesas do queixume      abrunhos tombam incertos nas palmas das mãos abertas      quero a marca dos teus caninos rente à minha vontade
a secreta arte

do caminhante do deserto

os rubis que se escondem

nas grutas cruéis

a cruz que nos prende à terra estéril
a vertiginosa cisterna esmeralda        lábios marítimos donde te ergues

agora é tarde      limito-me a escutar o som que se incendeia no teu corpo virgem      a saudação do teu regaço
o que teces e o que desfazes
ao luar
nua no terraço

o odor da tempestade na boca entreaberta
na porta escura do amor as lágrimas da saudade
com brandura abro as tuas pernas a língua adoço nas gengivas
adormeço   acordo   navego neste dócil sonho azul

 há um vício
            em cada palavra
      acto
           movimento

inclinada 
            para a frente
   a cabeça
              submersa

mordes
                a almofada 
  de bronze
                e gritas
    silvo surdo

dos espasmos
            que se dispersam
  pelos corpos
            descontrolados



quando uma
não basta
duas
são poucas

tantas quero
que me perco
nas vulvas do desejo

o amor não tem limites

tua boca no meu sexo
a minha no teu

saciando todos os apetites

seguro-te a cintura
o ventre macio
e com os lábios
exploro a gruta vazia


levantas os braços aos céus perguntas às nuvens pelo teu amado      estás só      o corpo vazio o desejo morto      o sexo frio

quando um navegante parte
nem deus sabe
se regressa morto se vivo

na fina areia das dunas      extenso areal      um corpo ao sol
não o conheço      não quero saber de quem se trata
é tão-somente um corpo de formas magistrais que recebe as bênçãos do mar
olho-o de longe e penso como quem não pensa nem sabe o que há-de pensar         ah se eu pudesse se eu fosse capaz de amar
levanta-se      veste-se      caminha por entre as ondas em rebentação      a água está fria porque é setembro 
marés-vivas do coração
vou-me com as pequenas nuvens brancas que adornam os deuses      ao som das vagas na espuma que nasce no horizonte
            vou-me com a tua imagem presente


dizes 
que é o meu cheiro
a fome de amar
a erecção constante
o vício de dar
de morder
um prazer que é teu
mas que antes de o ser
é sempre meu


é o meu pénis

que te satisfaz

que faz da terra

o paraíso

no orgasmo

que se dissemina

corpo que sobe

aos céus

ao angelical azul

que vagueia pelas nuvens

que desconhece o mal

voz silente

mansidão do olhar

as pálpebras ardentes

as mãos a acenar

abertas as pernas

os seios pendentes

boca na boca

boca no sexo

lentamente desperta

o êxtase que liberta

laço que encurta

que mata e faz variar 

o tempo-espaço

e nos ensina
o verbo amar


desço a mão

desço a tua


seguro teus dedos

toque que se insinua

no teu sexo quente


acaricio o meu

tocam-se as coxas


nas línguas viciosas

matamos a sede


bocas que se unem

que crescem

se mordem

acesas na escuridão


os corpos hasteados

tremulam febris

e um a um

explodem

como leite espargido



és tão bela       senhora
nesses cabelos doirados

tão formosa tão desejada
e se teu olhar desconfiado

me inibe    não consente 
e cala     ao ver-te o seio

branco         descoberto
sinto-me como se outro
fosse       nem rejeitado 
nem     triste deserdado

mas o que sonha
acordado
com vida contigo deitado


    tira a blusa
      a saia
       tudo o que tapa
        o silêncio do fruto

         despe a carne
          abre a alma
           fende o espírito
            rasga o vestido

             desce a boca
              ao ventre do vento
               geme louca
                na chama do momento

                o corpo é uma rosa
               por anjos vivido
              tua língua uma asa

             que me colhe o membro
            onde tudo tem sentido
           o que é
          o que será
         e até
        o que já não lembro

teu corpo a minha oração e o meu maior vício  
tenho defeitos incontáveis desejos subterrâneos e cios que não findam        não sei a quem mais orar eu animal humano que me abandono ao prazer das tuas mãos
que me importa agora se os deuses existem ou não
tenho-te em mim e creio na exactidão que nasce dos corpos suados encharcados em sangue quente

como é pobre a mente

na tua casa
  tudo é transparente

               os móveis as paredes
               objectos e gente

debruças-te na realidade
                                  e procuras

um amante 
   amigo
                que não seja opaco 
   que

seja meigo      
 dócil
 homem 
 de uma só palavra

companheiro de uma vida
amado verdadeiro

cúmplice eterno
do amor satisfeito

entretanto
                          juntas as pernas

eu 
de joelhos
teus pés no meu peito

o teu corpo num arco
o meu ao teu
aconchegado

venho-me

num espasmo

em ti

meu amor
meu desejo
minha dor


não chores mulher
em cada rua
em cada esquina
há uma abandonada

não és única
és mais uma
pela fortuna
não bafejada

espera

hoje não
amanhã      talvez
te visite
e ame essa nudez

porque cada corpo
é palácio donde
brotam flores
nos cumes regadas

retomam seu voo
na pele seca e frágil
e fazem de cada mulher
amada que se renova
na nostalgia das enseadas


com o sexo exposto
bocas que te sugam
harmoniosos mamilos

mãos que dedo a dedo
se aproximam 
desse canteiro florido

donde a vida nasce
com amor 
 e dor de parto


naquela mesa de pedra plantada no velho jardim ao som do vento nas rosas no silêncio da fonte a brotar do mais profundo de mim te penetrei horas e horas num tão lento amar querendo sempre e somente fugir do fim
esse corpo no meu sentado        a fragrância do sexo orvalhado        os teus joelhos nas minhas mãos as tuas nos meus queixos e um orgasmo a vibrar em mim nesse movimento deitado
espasmo após espasmo contorce-se o corpo nas linhas do espelho        nas palmas das mãos em desejo profundo mergulhas no divino prazer te moldas
belos os gemidos
com que me acordas


dizes que és minha
descontrolada
enquanto o orgasmo perdura
em suores alagada

repetes com ternura
exausta e ainda nua
sou tua

lá fora
na rua deserta
um cão uiva
uma mulher à janela
a solidão da noite
na porta entreaberta

e quantos não esperam
no mais louco dos amores
confessar o que se confessa
quando julga que se ama

esperma
de bronze
a fenda dividida
hálito de vidro
a crescer no ventre
húmido       esculpido
a língua no joelho
o odor do desejo
artelho desfolhado
hálito que invade
o umbigo o céu da boca
lambido     bebido
revolto como mar
em perigo sede de paixão
que se deita se despe
se consome
e perece ao nascer do dia

na última erecção


não suporto a tentação
perfume   presença   sabor
como é cego o amor


de costas        o varandim do quarto        as mãos apoiadas nas ancas      os teus longos cabelos
a noite foi longa e eu deitado com o teu aroma colado 
posso sentir-te tocar-te fazer amor apertar o teu peito contra o meu
para hoje e para sempre
            tu e eu


és tão bela

porque te masturbas?

deixa que te ame

não te iludas

provocas-me 
morena
sabendo que o 
meu desejo
é tão intenso
tão profundo
das entranhas o silvo
que ao negares-me
o teu corpo
prefiro-me morto
a vivo


encapuçada enquanto a cidade morre lentamente afrontas o amor que não serpenteia em humanos caminhos
amor que morre às mãos do prazer e dos sentimentos vencidos

são de esmeralda e rubi as lágrimas que verto
não têm razão        têm sentimento 
vero corpo ausente       que não invento

ficou-me na memória a tua fotografia esverdeada
enevoada pelo tempo

a saliva desprende-se dos lábios ressequidos

mais uma noite
o incenso alastra-se pelo aposento

o luar arrasta-se pelo soalho 
pesaroso        dolente

e nos lençóis
alumia-se no membro o intento

dá-me a tua boca      bebe comigo o néctar dos deuses
às vezes penso

quando sofro e estou sozinho 

como seria leve o teu toque no meu sexo
teu sabor caldeado com o do meu vinho


vejo-vos velho cadeirão tão gasto

a janela colorida de prazer

donde vos olho abismado

e vós sentadas

uma nas coxas da outra

mão em retesado mamilo

outra no seio por inteiro

rosa que se abre

ao vosso anseio

e tu a mais jovem              como és bela
no retrato
 da vida
não és uma
és muitas

tantas

que me perco

e a todas desejo

porque a razão elege
mas o instinto não



esse recanto da minha casa antiga deveria ser o lugar de repouso de um santo
um templo no muro cavado no granito das almas de meus antepassados         mas aí estás tu límpida inocente indiferente ao mundo às ilhas perdidas da paixão
às gentes      a mim        à pesada vida que corre pelas veias tensas da minha suja visão
o desejo na tua boca o meu sexo aberto aos lábios rubros de fogo na eternidade daquele momento em que o amor se transforma em verdade
lavro o teu corpo a saliva percorro-o com os lábios         a língua molhada        beijo-te os pés subo aos joelhos detenho-me no sexo que ora lambo ora penetro
encosto a face ao teu ventre branco      tão suave macio
com lentidão cerro as pálpebras
as pétalas da voragem
a boca nos seios hirtos
na viagem das mãos aperto-te as nádegas as costas e os braços
os meus desejos são os teus gritos
a minha paz o teu descanso

afeiçoei-me ao meu corpo
aos membros e ao tronco

acendi incenso no leito
tomei o veneno do quebranto

lembrei-te deitada
com a camisa decotada
nua

as tuas mãos nas minhas
as minhas em mim

dizendo        faz-me
isso        assim


nesta manhã de verão

   o corpo bronzeado

    na ternura do sono

     alimenta a lira

      com mansidão dedilhada

       na loucura do amor


        de ti só quero

         as formas bordadas a luz

          e sentir na tua pele

           o bater do meu coração


estou aqui neste mundo pardo
obrigado a amor fazer        operário do sexo a arar campos ressequidos
a boca atola-se na terra que queima as paredes do quarto rústico
                 as tuas pernas nas minhas
um sorriso uiva no papel amarelecido desfeito em lágrimas de esperma
não posso dizer não        não posso
negar-te o músculo que me entrega o destino fatal
                irrevogável é a vereda deste pobre mortal
perdido nas horas
espasmo após espasmo
            construo no hábito
            a ilusão do amor
                 e grito

o amor que tenho quando te possuo é diferente do que te tenho na ausência        as memórias de menina nos ciprestes avisados       nos muros caiados do coração a tua voz        aceito o gozo da solidão do corpo que contra o meu estreito        perdida a hora aperto-te devorador o seio no peito vazio        espero que a saliva percorra o labirinto orgíaco da tua face plana        vê        a caixa de madeira pintada onde guardámos os segredos da infância
simples te penetro à luz do dia

na coberta cinzenta
espalham-se teus cabelos

os seios descobertos
as coxas em súplica

ao meu olhar atento
ao meu pénis erecto

passeias-te nesta arma que ama e não mata

sorves-me o sumo que alimenta a tua boca e o teu ventre
suave é o milagre

a beleza do sol no teu sorriso
apaga-se à minha traição

fez-se no mundo tristeza   ódio   ilusão
findaram as horas lado a lado

as palavras ditas em silêncio
os momentos de êxtase e verdade

terminámos

anunciada é a morte definitiva da paixão

em ti o pranto    talvez raiva
em mim o sofrimento calado

e na tua falta

debaixo dos lençóis de tudo me dispo
pensamentos   roupas   instinto
e na sem-razão        silente
com dedos de veludo
me masturbo
me sujo
me limpo

morrendo para o passado outra que vem 
como sempre
ocupar a metade do coração abandonado


o quarto tem o odor das florestas queimadas        o mobiliário delirante envolve-nos      transforma-nos e suga-nos para o inferno de saliva ensanguentada      somos animais ferozes em desacato no gozo pleno dos espasmos alagados        fendemos o silêncio temível dos dedos encrespados        as pernas em leque      os joelhos dobrados
ah os desejos tão desejosos tão desejados


lavro-te o coração e a alma

semeio em ti o anseio

colo amor e cama te dou


o cheiro da terra molhada na erva que rebenta
árvores que se beijam pela brisa de oeste agitadas
        um ribeiro nascente espalha-se na encosta e contempla a poente
as serras nuas      desertas de gente

aproximamo-nos num olhar

as mãos deslizam para o sexo

roupas espalhadas no giestal

rígido e erecto penetro na gruta do amplexo o bramido da palavra amar

a escuridão 
assombra o quarto

uma vela acesa
no canto
anuncia a madrugada

a lareira
vai morrendo
lentamente
como gente

enquanto 
o frio aumenta

saciada
vestes tuas roupas
ainda suada


houve um tempo em que te amava nas horas perdidas        tempo de sossego de harmonias em que tudo era tão verdade
a saliva escorria no canto das cotovias como deus na eternidade
fazia-se manhã      noite       tarde
nada nos cansava        tédio ou fastio
porque tudo era novidade

de tudo te fazia

digo
vira-te
lambo-te os seios
o pescoço
os pés
os joelhos

outra vez
fecha as pernas
aperta-me o sexo
move-te
depressa   depressa

redondo o fruto
circular o movimento
pénis erecto
duro lenho

espera   espera
que me venho


as palavras que te disse
tão vívidas e sentidas
no momento em que te tive
e me vim
foram apenas palavras
com um princípio
um meio
mas sem um fim

fico tão silencioso quando te vais
tão triste tão choroso
saudoso dessa partida
de que guardo a despedida

na memória o teu olhar
a floresta dos teus cabelos
a maciez da tua pele
os longos actos de amar

esperma que espalhas
nas coxas ventre e lábios
no corpo em oração

a pele dolorosa e dorida
nos lençóis de vidro
solidão onde me estiro

a nudez arrasta-se lânguida pelos candelabros do salão antigo        eu conheço a chama dos corpos vivos a febre do esperma a cobrir o dorso das palavras que se constroem na rigidez dos membros        bebo o vinho da tua boca rasgada        num mar revolto de desejo oferto-te os meus braços e invento um poema com o sabor do sal das ínsuas        beijo-te a boca cravo os meus dentes nas letras ritmadas
sugo-te o ventre
tenho sede      lava-me as entranhas      suga-me a vida


a tua boca no meu sexo
língua descoberta e palpitante
contudo
o meu coração está distante


toco no teu peito
reclino-me no teu ombro
sinto a delicadeza de teus dedos

erguesse-me o anseio

afagas teu seio direito
beijo-te o esquerdo
treme-me a mão
ao toque subtil

pouco falta para a consumação


   uma lágrima
    em tua doce face
     de branca rocha polida
      lúgubre penitência do pecado
       que me algema e tolhe a alma
        nesta insalubre tarde de domingo

não tenhas preocupações      que nada te afecte
estamos novamente juntos        lá fora o luar banha as cerejeiras em flor        não há dor que resista à força vegetal do nosso amor
a tua boca arrasta-se pela minha pele        rosa das rosas a mais bela
um castiçal acende-se no toucador e um pau de incenso perfuma a antiga estatueta de gesso        deuses espreguiçam-se ao canto da lareira
tomando a seu cargo o preço de quem demais ama
numa sofreguidão tão justa e certeira
tudo tão nítido como cena de amor corrida em branca tela
o teu rosto rubro como vinho
sorve-me a razão        os instintos não


pernas que se abrem
mãos que se unem
a angústia do abandono
no curto espasmo
por dóceis dedos cavado

pernas que se entrelaçam
suave é a mão na deleitável
curva dos seus seios

bocas que se unem
flores ao vento 
na brisa do suão

a percorrer 
os extensos filamentos
dessa juventude

a quem 
tudo é permitido
mesmo o sem-sentido


porque me olhas assim
como se fosses ferido veado
por infame lança penetrado

não é por mim
é por ti que o faço


é na extensa noite
que as estrelas tremulam
no teu leito

um candelabro incendeia
fios talhados a mirra
depositados no teu peito

e eu sem saber
quem sou
nem onde estou

o líquido da vida
no teu ventre sagrado
em êxtase derramo


mão que vacila e paralisa no veludo desse corpo nu
a voz crepita no gemido da tua cintura
na penumbra prossigo
                 quebro o elo da tua entrega
avanço animal feroz na prisão de teu vestido
o delírio abrasa-me a alma
                queima o espírito
e porta a porta   vez à vez
         de ti tudo tenho
         e já nada entendo


quando a morte vier por esse oceano de espuma que parta comigo a visão de teu corpo nu 
costas ao mundo voltadas porque quem deveras ama só tem olhos para o amado que para sempre partindo tão pesado lhe é o fardo que carrega do coração destroçado como o esperma que nas algas de linho assevera a aterragem na terra prometida


naquela noite rosada
levaste-me contigo

levas-me sempre
quando o coração chora

conheces-me
conheces a minha hora

o meu anseio
a ansiedade

do meu corpo
o volteio

a agitação
o orgasmo

a extensa 
erecção

e sabes tão bem
bem melhor do que eu

dos dias os momentos
em que sou apenas teu

por ti sulco os oceanos

navego o azul dos céus e dos mares

e a cada bordo te tenho de borco

no mais louco dos prazeres
nos beijos que se incitam

na febre do corpo
no silêncio da razão


tenho saudades tantas de saudades não ter do amor que me deste      de tudo o que me fizeste com tão exaltado prazer
boca com boca

as brasas na lareira

agora a eira deserta


acendemos a carne nos montes bordados a pétalas cálidas
os ossos da terra repousavam ao mel do sol poente 
o quartzo dos ombros contrastava com o granito róseo de tua vagina        lagoa nas alturas
os arbustos brandiam os braços à nudez do rio indisfarçável
bebi-te em todas as águas do tempo silente
no teu ventre adocicado germinaram relvões em estilhaços
fizemo-nos chuva   trovão   relâmpago     furacão
no ar os seios voláteis
arrebatados por mãos frementes
hálito disperso à superfície das águas

nos meus braços a tua sombra
na minha boca o sabor
da tua vagina em flor







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