ANTIPOESIA

ANTIPOESIA
ANTIPOESIA

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DESCONSTRUÇÃO I



nós os libertinos triunfadores de novos mundos os famélicos estupradores das mais vistosas fêmeas os dominadores emplumados do progresso e algozes coloridos da razão negreiros-reais pelo papado outorgados inimigos da mente cósmica    nunca conquistaremos os mistérios nem os enigmas da alma dos deuses do universo 
              a ciência são palavras gastas 
                        a filosofia vã 
                  e todo o resto nada
apenas na morte está a vida e a vida na morte        vida-morta      morte-viva
o cadafalso dos inculpados sangra pelos punhais de séculos cravados no coração de imaculadas feiticeiras
a cada uma a sua espada a cada amada seu punhal  
há um nevoeiro infernal no carreiro do alento
             que venha o caixão-das-almas
                que venha sólido e durável
            serventia de pobres sem-abrigo
     
turva-se a quimera à certeza do óbito lavrado no caminho dos inocentes macerados pelo calvário dos descrentes      falece-se apenas      com os caninos amarelecidos pelo fumo da erva-santa e pela sobra do alimento desesperado      morre-se a cada minuto e em cada minuto constrangido pela hesitação só a tua imagem me comove      vem tu benquista      
                     vem amante      
             desacatemos o amanhã      
            vem como outrora vieste                  
                    vamos vibrar      
             desprezemos o passado 
           para que a vida revivesça
      
ah como é entediante todo este teatro burlesco e zoológico      ninguém se compadece dos pobres defuntos que percorrem exaustos os becos à beira-rio envoltos pelo odor nauseante da mais baixa das marés e dos que palmilham cabisbaixos o lodo das margens deixando as marcas de efémeras passadas titubeantes 

                      o rio diz-nos adeus
                    o rio é mais belo à noite
                  as luzes da cidade emergem
                  na promiscuidade paradoxal
                         dos entediados

avelhentamos num amor abortado de corsários ensanguentados por vetustas e inglórias disputas      imaginários espectros vertidos nas raízes do coração        por nossa própria morte enlutados      o decesso de todas as esperanças
sabes      talvez já não saibas nem o queiras saber
é de todo natural quando a soledade faz doer
lembro o tempo que escurecia na curva da escola por iluminar      as crianças repousavam nos tugúrios com os olhos abertos ao seu mundo exíguo enquanto os velhos faziam ecoar os seus ressonos nas velhas paredes graníticas e suadas      
tempo por tantos esquecido mas que eu não desprezo      tempo que não retorna mas fulge nas nuvens de verão tão tímidas tão nuvens tão reais e humildes no vazio da sua singradura celeste
quando a criança cresce o coração engrandece para que nele possa caber o mundo inteiro      candidez de adolescentes      todas as paixões e alentos desejos emoções e sentimentos

eras magra o rosto trigueiro sardenta esquiva                        eu era tão jovem para amar
se é que soubesse o que isso era      mas
bastava-me olhar e reter a tua imagem      não era o corpo que procurava mas o sorriso os gestos a castidade das palavras e aquele jeito tão especial de andar

              amava tanto aquela virgindade
          - idolatramos sempre a virgindade -
                   que dou comigo a pensar 
                    que o amor de verdade 
                está contido num só olhar ou
               num sonho repleto de saudade

o tempo corre nos dias exíguos de uma vida submersa      ontem de calções pescando no ribeiro com uma cesta de vime e hoje tomando nos meus braços o esquife final      morta seja a nostalgia       
ergue-te mulher antes que eu seja pó eternal no retorno à maternidade estelar      abre portas e janelas as palmas da voracidade bate jubilosa sai esbelta da escuridão sorri com lábios em rima
cabeça tresloucada a balancear      estúrdia
sonhemos imponderados como crianças recém-nascidas      vamos fazê-lo na rua nas escadarias da poesia nas pedras cinzentas do tempo perdido nas entranhas ardentes da terra      sozinhos
                para que toda a gente veja
                que o pecado das religiões
                  é hipocrisia de eunucos 
só não ama quem não sonha ou está doente e quando amo se é que amo ou liminarmente vagueio pelos corpos da noite sem rumo ardo pirético enlouqueço nos braços da insânia
      
patético      devaneios de jovem febril e ardente com a mesma urgência de falcão faminto e impaciente no alto da ravina rósea
sentado num banco apodrecido da avenida o vulto dela      uma cinta de seda estrangulava-lhe o pescoço      alcova de pérolas e coral dos desvarios
queria retardar o dia para que a geada nocturna de maio não crestasse as plantações palpitantes de sexo      um pássaro verde voava no azul      no vale a lentidão do gelo arrostava-se pela erva macia como corpo aberto a amadornar ao colo do luar e tu musa pouco me pedias dessa tua esquiva clausura        recolhimento pejado de sentimentos      pedias-me apenas um abraço apertado a versos doirados bordado
um pedir tão parco e tão escassa ambição quando o amor que embarcava e embarco não o contém o coração
pedias tão pouco e tanto em breve e vago desejar a quem louco andava por te não poder tocar e se sufocava em tal carga que não conseguia desembargar naufragava a embarcação com o peso de tanto amar
                      mas
o tempo passa      passou pelos vãos de escada polidos por passos vacilantes de extremosos amantes já sepultados 
cabeça aurífica no vão da escada circunflexa      pesa-me a consciência      estupidamente      os remorsos corroem as carnes fracas dos ruminantes

                        o meu amor      
                ora que é isso de amor
                    um amor partido
                 uma partida de amor
                   por louco cravada
 a andorinha pôs seus ovos no beirado luzidio
                         enquanto eu
                   - em carne e osso -
                   parto para a contenda
                
tenho saudades das diferenças no tojo quente e farto
escuta
        virgem híbrida do oriente 
                    colhe-me como eu te colhi
        o sémen da esperança no teu regaço pungente
saio de dentro de mim próprio      vejo com os olhos cerrados e sinto o perfume vindo de longínquo país do sol-nascente 
pérsia 
- sempre tive em especial apreço as mulheres persas –
pranteiam os mísseis da caridade      aí nascerá a última das guerras

o princípio do fim      o primeiro dia dos restos mortais do último      chamem o defunteiro os gatos-pingados com seus archotes o padre ou o diácono abade sacristão e beatas      tanto faz      condenemo-los ao fogo eterno
as carpideiras da terra-fria esgotam-se no lusco-fusco      no vale purpurino acendido pela desertificação gemem as almas dos ancestrais
quererei viver      chafurdar nos botequins obscenos queimar os quadros descoloridos dos museus incendiar as bibliotecas excitar os corpos perdidos na noite tenebrosa

um cão ladra ao vento e às folhas que caem sobre os estropiados      também eu
odeio políticos magistrados autoridades      frutos pútridos de malparidas      longe ide para longe desimpeçam-me o caminho      nojo de vossos laços e gravatas

                  o meu coração confundido
                            em viagem
                  é sangue que se derrama

os pobres inocentes não são ouvidos       porque o haveriam de ser se são as presas fáceis da burocracia rotineira e da ecolalia dos lacaios da inaptidão      os exprobrados      esses sem opinião  nem perdidos nem achados
os poderosos larvados causam-me entejo      eles que carcomem os inculpados

               sobejam as fêmeas da insónia
        restam sempre os despojos da batalha
amanhece                            trinco o mundo velho
imprestável como todas as velharias raras da montra do antiquário empoeirado até às entranhas
no meio da manhã                um mar de ondas
         alameda sombria ladeada por álamos
                            a orar
suplicante                          no canteiro desfigurado
a flor murchou ao florescer de improviso
com tons quentes pinto as mulheres felizes        
             como é perigosa a felicidade

                     a roda da fortuna 
              encanece as mãos sulcadas 
                     por veias salientes 
                      de sangue morno

as nuvens acendidas pelos últimos raios do sol  pressagiam eterno conflito      
a mais horrenda disputa enfurece os verdugos sub-humanos 
no inverno germina sufocante tempestade de verão
não podemos adiar os gritos horrendos do combate
folgando no formigueiro envenenado abandonando as espadas triunfais da vitória o cadáver dos dias esgotados      murchos
o silêncio                       mas subitamente
             o toque
                       a percussão da alvorada
                                      as armas devolutas
não podemos adiar a guerra dos lábios acesos presos infinitamente ao sexo dos sonhos idos

não perguntes nada                           seja o que for
mantém-te calada                               armemo-nos
amemo-nos                           que duas mãos temos

lá fora na noite a existência transformara-se na monotonia de um jogo de salão      por falta de sustento pobre mãe ao gosto das ondas a colher as velas com tamanha doçura      os tempos deram-se à costa bravia aliviados pelos trabalhos dos dias ensimesmados de males e dores

deixem-me subir      subir      subir ao mastro real
para salvar o amor                         eu
                   que não sou como eles
que
      não faço o que fazem
      não digo o que dizem
              dinamite em espiga por colher
              linda rosa 
                            bela é a flor a morrer

a varanda abre-se de par em par num ramo adornado de palavras escritas ao inverso e na vertical
uma legião de ofendidos em túneis baloiçam na luminosidade do vento que resvala e ecoa no aroma das folhas desertas
a rainha de espadas escolhe o rei de oiro com chagas nodosas no ceptro eréctil e faz amor na sombra virgem de um pássaro aceso pela penúltima vez
o desejo da morte      tão forte      dor sem dor
dor que a dor mata      dor de amor

                 a amante de décadas
                        segredou –
                       boa viagem

- foram tantas as viagens que fiz e tantas as que ficaram por fazer –
       uma lágrima rolou
         para o leito de morte
            enquanto para sempre 
               adormecia na palavra amar

os dias fogem na fátua benquerença      voam        na crueza do horizonte      não lhes é dado transpor as margens do céu
                 dias em fuga sobre mil colinas
                           metade ouro
                           metade ferro
tu és a rainha de tudo o que acaba quando eu for finado      és a herdeira da falsa eloquência      em pedra mole firmado o fino pensamento
a glória de marfim polido corre mais cedo a uma outra existência de manto espesso estando na alma bem guardado o segredo do alegre caminhante a vasculhar profano o futuro

                a caça da mosca impertinente
              o escaravelho taciturno e sideral
                            a mente

onde o teu rosto é uma rosa desfolhada que a terra deixou      os olhos baixei
sereia 
                relâmpago 
   alimento
                   das vozes cheias de espinhos
   embutidos 
                na negação 
        dos dentes que brilham

aroma a resina que ao lusco-fusco pousa na raiz da árvore a que te entregaste com furor divino
minha sede esgotou teus lábios a suster o peso terrífico das horas geladas sem sombras
nu no inverno      trémulo entrarei no teu túmulo vazio      cabisbaixo      sedento no desvario do sem-sentido 
sentar-me-ei à beira-mar acariciando as ondas
relembrando os tempos em que tinha a secura das escarpas dos amores vividos nos promontórios em caixas de lata coloridas      tempo em que devorava a noite qualquer noite como se a última fosse 
cabarés espeluncas negras tavernas nas ruelas encostadas aos candeeiros flácidos da bruma
alinhado na vertigem dos corpos por escolher para um quarto de hospedaria com a alma a restar gelada no sítio do costume 
cada qual com seu poiso área demarcada a urina e ao suor hidráulico da contingência
em cada transacção inventava o amor
com a idade soçobrei na abastança das genuflexões       os membros rígidos a ilusão de todos os tesoiros do coração ilusório a desvanecerem-se nos cabelos grisalhos sem brilho e nas rugas dos anos

                hoje no mesmo banco 
                sempre no mesmo banco 
                dou milho aos pombos que acordam 
                quando a sede da noite já está enfartada

mas volto      volto ainda às margens do desejo enquanto o orvalho poisa nas pétalas e o rio é inundado por bolhas de chuva quente      pérolas da madrugada grisalha

uma truta acorda      volteia      esgueira-se na corrente das doces águas
os insectos acordam curiosos      rodeiam tudo o que é movente

                 olho-te a meu lado
                 corpo alado e sereno
                 juntemos os nossos corações
                 de novo 
                 nesta manhã
                 faremos florescer a orquídea selvagem

uma oração por mês nas nuvens enxutas      a voz inefável irriga o jardim em farrapos       a casa grande desmorona-se       separação da carne e dos ossos      sangue no poço cavado pelos imperadores da antiguidade
suas mãos inteiras cercavam-na espessa e abundante 
              os deuses proclamam agora 
             a vitória do sexo sobre o amor 
sujeito às múltiplas injunções do prazer o amor morre      matéria ideal destruída pelos sentidos do pecado venial      o seu coração lamenta e chora quando se apercebe da forma extasiada como ama e a quem ama ou pelo sexo anseia até que seja sepultada junto dele no talhão destinado aos heróis da virtude carnal      o deus da juventude é longínquo na virilidade inocente de aguilhão aberto ao arco de setas da tenda bárbara redonda      talvez um dia se esqueça nas asas do pássaro sombrio de odioso riso a escarnecer dos olhos amorosos e dóceis que aguardam a perfuração da lança aguçada exterminando os pensamentos infelizes e destrutivos porque quem amor faz num assalto brutal à vida não os tem e é abençoado

       nessa arremetida 
         foram muitos os teus amantes
             muitos invadiram os lençóis 
                rendados do nobre dossel
                   mas quantos te serviram 
                       em bandeja dourada 
                     o puro néctar do amor
                  o êxtase de uma noite 
               acordada à lua

hoje nas montanhas distantes recordo o tempo pacífico em que as pétalas caídas no teu leito nos envolviam em afagos esplêndidos e as súbitas descargas de vento faziam deslizar o sexo arvorado livre de todas as aflições mundanas      apenas a chuva caía ansiosa no telhado de vidro
por baixo os corpos agitavam-se em cúpula desfeita      lençóis de seda desmoronavam-se em círculos imperfeitos quando a neve começou a cair

                   um ligeiro vagido 
                        extremoso 
            clamou ao silêncio da aurora 

amor agora que tarde se faz e a manhã doirada já estremece no amplexo mecânico      o mecânico espasmo      agora ou nunca      vou amar-te nas vagas da distância esmagadas pelos dedos da querença 

um cão danado no meu caminho      espinhos silvestres nos pés sangrantes de viandante
não me respondes já não ouço a tua voz      amo-te e esqueço-te      afinal o esquecimento também é um modo do verbo amar 
quando há flores no espaço o teu corpo cheira a rosas molhadas pelo orvalho      corpo de estanho em favo de mel moldado
reina a ordem no universo indiferente ao seu criador
deus feito carne que semimorto de cansaço sua criação sublimou
corpo molhado possuído por extensas garras azuis      arrebatamento em cascata       mais quero mais     dizes       fundo      toca-me nesta noite serena de outono atravessa a ponte da saudade e nada no meu desejo a vinho novo perfumado

mas tu e as coisas ou se quiseres as coisas que somos não são mais que coisas      aquelas que vejo ou me contam de ter visto e imagino como são e vejo por outrem ou mesmo por mim no lago da eternidade onde estão todas menos eu que se de coisa me revisto pertencendo ao imaginário que é teu é porque se no que existo sinto em ti o que é meu e em mim o que é teu
e seca-se o teu corpo casto                e o meu

enquanto o sol morre lentamente no horizonte  coberto de paredes de betão e as sombras do dia  se arrojam na pequena ilha da cidade
a praça deserta a contemplar a massa gigantesca de pedra duramente aparelhada e a maria dedicada      para além da ponte de apaixonados e suicidas 

                os pequenos bares aconchegantes
                      - bystro bystro bystro –

espectros de antigos combatentes      
             beijos rosados no jardim do luxemburgo com saint michel a ver e ouvir pesado e pisado por caminhantes da vida abstraídos      
            a animação      os versos e aforismos dos cerebrais embriagados 
           onde toda a realidade é mais realidade

quartier latin

                    povoado de amor imperfeito 
                             perfeito julgado      
                                notre-dame
      
                       a visão de dois corpos 
                      em chama viva de amor 
                     dois rostos transfigurados 
                     em incandescente paixão
                              passos lentos
                         de mãos apertadas 
                         dedos contra dedos 
                                cerrados

uma única verdade a penetrar a catedral vazia
casa de santa maria      no altar e nos frisos esculpidas as faces de santos          
                                   vivos
no ar o som da solidão das palavras macias de amor da antiga adoração      
              canto gregoriano a silenciar a oração
mãos apertadas percorrem a ponte      dois corações em êxtase olham o rio que corre cintilante
        sinfónico        cantante        mãos que se apertam mais e mais      
                                um espasmo        
                                      outro      
                              a divina sensação 
                            do milagre do amor 
                 repartido em orgasmos sucessivos 
                de pão e vinho aos dois distribuído 
                                     e o sena 
             pára abismado contraído de gozo alumiado

                        um outro arroubo de luz      
                     o mesmo que a virgem santa 
                           na cidade de nazaré 
                      teve quando concebeu jesus 
                         de mãos dadas com josé

os dias nascem e morrem como flores coloridas ao sol que as ignora
cai a noite que resvala lentamente no quarto opaco alugado a uma velha indigente      o dia levanta-se apático estremunhado corroído por débil vontade que o espelho deformado do tecto não reflecte      mais abaixo os salgueiros bebem a água do rio e o vinho aquece ao sol crescente      não vamos ficamos onde moram os amantes      entre lençóis de linho aquecidos e sorvemos o gozo que dos corpos se extrai 

há uma dor latente na quietude      outra diferente no movimento

ouve-me meu bem ouça-me quem amo      mesmo amando parto sem que saiba se e quando voltarei
se fico farto fico      se parto não sei onde ficar nem para onde irei      leve-me o vento para onde levar e desse lugar distante se amofina a alma inconstante por a ti tanto te amar      se parto morro se fico sofro de amor por ti meu bem

para quê partir quando o retorno é fatal      onde há uma ponte líquida entre mim e a outra margem da vida e há o deserto das mãos impudicas a acenarem ao desafio de viver sem comando e sem governo de escrever o que me contenta nas páginas brancas a amarelecer de fazer amor sem que os actos e os mais íntimos gestos da pele ardente sejam aquela paixão de que os poetas falam e de que tanto se enganam
também se me parte o coração em bocados e estilhaços na tua partida sombria      rosto impresso na vidraça      um único dia não há em que me não morra a alma e a cada noite renasça mais saudosa e sofrida e na angústia da ausência triste consome-se a vida que súbito a morte me não dá mas que a pouco e pouco ma tira
      
                     venha de teu rosto 
                      a graça apartada 
                                 e 
                  a escondida beleza única 
                    só vista por quem viu 
                    para além desta vida 
                    e no amor mergulhou 
                          sem tempo 
                          sem medida 
                  e no outro se transformou 
                          em carne viva

ah saudosos amores nas asas do tempo sepultados aliviai as doces dores dos eternos condenados      vinde lestos que o dia escurecido adormece em lençóis brancos de leito esmorecido      apagai as lágrimas coloridas de quem a morte procura e da vida nada quer porque a 
       guerra do coração ao louco mais transtorna 
       e ao sadio ensandece que de tanto sofrer 
       lhes perece a vida morrendo sem morrer

somos mortais que se alheiam apáticos das mazelas da alma      eu hoje indiferente ao seu aparecimento como a árvore que seca e aguarda sem aguardar a chuva de verão      indiferente à experiência ao desejo ao conforto à sua vinda à sua ida
ela      ela vive e sofre mergulha na tarde na sombra da montanha em tristeza crescente      feições agudas      pés a sulcar pegadas já lavradas com uma pulseira doirada no tornozelo pérola      o mundo está prestes a terminar      a cada dia cada sentido mergulha na escuridão      o inverno estremece o corpo frágil que nenhuma brasa aquece
nada há que não finde      nada      há excepção do espírito do teu amor
teu corpo santo na pura mocidade tua voz trespassada por fogo sem fumo teu nome que sacia a fome de pobre aflito em botão de rosa por abrir teu corpo esquecido pela viagem

desembarcámos em luanda marchando na avenida ornada de saias rodadas com os olhos cegos de luz
nos lábios o sorriso de quem vai beber a cicuta das delícias do amor e da guerra
      
é preciso inventar o amor

hoje são apenas palavras de encantamento que morrem à beira do rio ascendente      a ilusão do peito submerso nos ácidos projectados em escombros      miséria rastejante perdida no deserto de leis desconhecidas      sarcasmo hormonal de corações falsamente compassivos      umbral de porta escancarada ao engano e ao desejo alucinatório de sacros sofismas      luz feérica de ruelas adormecidas no néon da praça virgem      

é preciso reinventar a mentira

ensaiámos as palavras no sentido áspero da enarmonia convexa      ambições      o amor
jogámos como amantes nascentes      os corpos suados lânguidos ausentes no palco sombreado do leito de açucenas 
há uma ponte entre nós um abismo enlameado pela apoteose      a lua arde e o sol no outro lado da terra desespera      diz-me bonina qual é o teu nome      não corras gazela      os corpos estão à venda hoje domingo algures lá fora

o destino      o acaso      o absurdo      a dama sobe a escadaria do palácio para o encontro      golpe fértil atrás de biombo
      
                     um leve 
                gemido nupcial 
                perfumou o ar

nesta vida associam-se as imagens em azinhagas intermináveis      sinto a tua presença no sofá que aformoseia o relógio barulhento do canto da sala empoeirada
quando chegar o tempo em que não houver ninguém para te amar em que nenhuma mensagem percorra continentes para te consolar tocarás a flauta no sopro do suspiro      

                        como te lamento 
                        assim envelhecida 
                       com a luz do coração 
                           a extinguir-se      
                        como te lamento

nona noite os corpos já se estendiam no tacto subtil do final do dia      suores fiéis dançavam rodopiantes entre membros desnudos como ramos de cipreste vergados ao desejo      ouvia-se a sua voz      o testemunho do acto vibrante 
o quarto é assaltado pelo perfume das flores silvestres orvalhadas pela noite de lua nova      
                             perguntas-me 
                              solenemente 
                           pelo anel de noivado 
sem que te saiba responder      digo palavras soltas nas folhas esvoaçantes de outono      mas há o teu cheiro o teu corpo os teus aposentos vermelhos teus lábios de framboesa a colher      
                          tudo para além 
                      das meras palavras 
                    para além dum mísero 
                         anel de noivado
ouvia a tua voz      a respiração doce      o som do leve sorriso inocente      a confissão de amor de quem nunca mente      não sabia que ia ficar velho que ia ser amado por quem não amo na mansão do mar em que na solidão e no espelho agora por ti clamo      tarde demais      perdi-te para sempre     
              resta-me o meu corpo

se parto ou não não o sei      a distância é a do biombo que nos separa da cinza do pavio aceso na escuridão de suaves tecidos púrpura      a fremência do corpo em desesperança a cama rubra deserta      beijam-se as folhas de lótus      as nossas sombras sentam-se na colcha branca bordada pelo luar arrastando os ponteiros da volúpia na eternidade do encontro das vestes suadas
                            o teu olhar 
                           cai sobre mim 
                   como aguaceiro de verão      
tens o cheiro de flores campestres aconchegadas à sebe descuidada duma terra distante onde não há geada nos vales      encontro de breves lúzios à luz do círio congelado e sem significado

chegou tarde      o corpo aguardava tenso      corda retesada de lira no vértice do movimento      com os seus ramos abertos fecharam-se as cortinas      à luz das velas a nudez era mais nua e penetrava o tempo pacífico da alma no lamento de longa ausência      a carne penetrante suava perfumes estrangeiros que choviam no interior dos corações inflamados      banho de amor na praia da noite partilhado pelo desejo sem muralha na concórdia volátil do prazer      não me deixes nunca        disse      vem comigo para um país sem gente de mel vinho e leite onde o veado brama o grou grita e o leito faremos de macias ervas e fetos como a neve de inverno a deslizar no colmo das choupanas      vem comigo      penetra-me para sempre      amor    amante      amigo

tenho apenas um minuto para te dar neste amor ardente      o passado ave migratória cega e insolente até da memória ausente feneceu      o futuro como as lágrimas salgadas é pena que te dou áspera e cruel em vida escassa e incerta
      
                        resta este minuto 
              em que se te não vejo tremo 
                          se te vejo temo 
            e se te não possuo para que vivo      
                sobeja este minuto eterno      
                             consente-o

nessa madrugada de solidão na ponte de aço uma jovem em tempo de trevo florido com a alma trespassada por amor alvejada      a água negra do desamparo nos olhos ternos de orvalho diz-lhe
                            vem
                       serei o que te 
                         desabrigou
                        o teu eterno 
                           amado
não encontrei palavras para a tua beleza      o nenúfar brilhava ofuscante      no puro vinho voavam os espíritos do gáudio      madressilva ornava as janelas      vieram grous e cisnes e das urzes floresciam perdizes      a noite cantava com a chuva cristalina à terra encantada sem nevoeiro e à lua camuflada      o mar sulcado por barcos doirados    
mas não encontrei beleza como a tua

adormecera na calmaria  das águas plácidas da baía de benguela      sonho rasgado de saudade do agora velho soldado das terras de áfrica ausente      à sua frente no areal a sua negra      dentes alvos      peitos hirtos e redondos olhos rasgados      sorria-lhe amorosa dolente languescente
desperta envelhecido      esfuma-se a nítida aparição      
                na face uma lágrima mordente      
                     se soubesse que sonhava 
                       nunca teria acordado 
               e a negra ainda na praia presente

                     já não sei de quem sou      
                       se sou de alguém 
                     ou se de ninguém sou      
fez-me o destino errante viajante de vastos amores de chama viva em alma ardente      moro no meu coração      na verdade e em quem mente com o amor a caber na palma de uma mão 
                      e se não sou de ninguém 
                         com alma tamanha 
                 sou certamente de toda a gente

olha-me pois nesse teu olhar de luz radiante enquanto lembro o beijo que a boca me tingiu de oiro e prata e o cheiro da laranjeira em flor a pouco e pouco se desprende das minhas faces pelas tuas tocadas
chegou o tempo frio        a cama no quarto pequeno exala do gelo o aroma      o sol ainda adolescente espreita teu colo resplandecente      tremente            
                   sigo uma estrela no céu 
                     vejo a geada crescer 
                e aqueço nos lençóis frígidos
um aperto nos pulmões lavados pela nicotina das horas desertas      a certeza de que o teu córrego acontece na direcção do remanso
pode dizer-se ou diz-se podendo ou não saber-se o que se diz que a intuição não sendo absoluta nada à superfície das dores de sangue e eu sei que travas campanha em nova vereda julgando que no beco de paredes amortecidas existe a terra prometida      fico-me por aqui como sempre liberto da ilusão por ti anunciada
não levanto o auscultador gasto de palavras aquecidas pelas verdades relativas dos viajantes estelares      aguardo que o sono se arraste pelo colchão sem lençóis e pelo ruído dos aviões que no alto piscam luzes saudosas      os barulhos distintos sucedem-se no asfalto remendado por bandeiras de carne humana apodrecida às chuvadas intensas de verão e aos temporais      a lua sobe pelas estrelas uma a uma      sóbria cuidadosa e tu já não vens       adormeço no regaço da solidão e beijo o meu próprio corpo

amanhã ou depois   quem sabe   apreciarei a neve que cai a agasalhar suavemente as vidraças do quarto quente do teu corpo desnudo nos meus braços de esperança que cinges com esses dedos delicados doces e magoados      juntos bebemos a nostalgia do céu as ondas vencidas pela amurada inerte o beijo-mel dos astros radiantes nos lábios extáticos em cruz      gosto do teu coração a palpitar da tua alma luz de calma lagoa      gosto e gostarei do redondo de teus gentis seios pousados no meu peito amado      venhas ou não

                    é certo que o amor mata 
                  não a quem se deixa matar 
                 mas a quem não quer morrer

  se os teus olhos tivesse 
   se os pudesse sempre ter 
    quer na vida quer na morte 
     não morreria 
      e com olhar assim tão terno 
       para sempre viveria 
        nesse amor eterno 
         que quanto mais calado 
          mais vivo se tornaria

que esbelto o teu rosto como nunca outro vi em ninguém      belo macio meigo afável doce sorriso diáfano celestial      por muito que o procure não o vejo em parte alguma porque no mundo não há desejo que ao meu se iguale      de não te ver desespero      o coração em lume incandescente a saudade a devorar a alma      
                    se beleza como a tua 
          por muito que corra não encontro 
             que em mim o amor morra

como um livro de amor aberto no aroma  das tuas mãos de marfim li-o alto em mim em horas de ardente febre      passos dados no destino errante

   li-o em ti
    virgem doirada
     que na amargura 
      o amor vesperal inflama

             e se nas mesmas palavras
           não estão os mesmos corpos
          decerto está idêntico destino

são teus olhos verdes senhora que me fazem ter de amor tanta sede e na vida ir mais além      não fora a sua cor ora verde ora azul em face branda em flor já me teria ido para sul onde abunda o calor para que sofrer me não visses em rocha agreste acoitado nos seios de uma outra mulher quando por ti rejeitado porque quem deveras ama olhar tão delicado outro inverno não há-de querer

erro no mundo 
em actos e passos
no mar sem fim
na terra oculta
por montes e vales
na névoa
nas chuvas
e neves
erro
grito desolado
na charneca
encurralado nos jardins
do solar da morte
a nuvens ornado
o vento assobia
rasga o peito à neblina
o que é vivo já sossega
na solidão
que se carrega
e custa a sustentar
crisântemos de outono
mulheres de jade
amor perfumado
do amar exausto

                         às vezes

                           amar 

                       pode cansar

de manhãzinha sonhei com a tua pele macia de menina com a tua face cinzelada e cintura fina
mãos frágeis      boca de mil beijos       apaixonada no leito de alabastro pelo amor lavrada
sonhei e ao acordar vi-te deitada a meu lado e vendo que ainda sonhava por te tentar acarinhar não te encontrando tua falta chorei

como eram graciosos e brandos os teus gestos melodiosa a tua voz as tuas palavras lírios e os olhos negros tão macios      fui eu quem em sangue vivo de amor te desvirginei      o primeiro corpo fervente que amaste nos dedos longos da descoberta      
                      onde estás alma deserta
não sei com quem te deitas      pouco me importa com quem dormes      não sei como te sentes nem se me mentes se em segredo tens prazer ou dor e tristeza se a visível pureza é meramente aparente e a tua leveza é pecado indiferente de quem ama gente sem gente escolher      não sei      não quero saber
                 quero-te por uma noite
                           desnuda
                            plácida 
                             servil 
                           amorosa
                 por uma noite somente

dor e morte nas deambulações      noite após noite      na montanha donde nascem as estrelas os corpos rasgados e em chaga soletram em vão a palavra amor
à tarde num pasquim num frio altar a fotografia da cidade em chamas
que bom que é a dor sem doer 
               a morte sem morrer
afastei-me da cruz não mais a carrego      abominável tempo gasto na maré vazia do espírito em circulação
                   deambulante
        reconheço o sol que se levanta
             o mesmo que se deita
                   a lua nascente
as lágrimas vertidas a arrancar com ferocidade o peito das flechas sanguinárias e as veias salientes  das carícias e dos beijos a crescer no asfalto dos caminhos desertos
carne e ossos na terra      anoitece      o coração de corda pára      o azul coberto de nuvens raiadas de jactos
sorriem os longos areais ao mar que canta a noiva morta ao luar
primaveril o ar

              duas árvores negras no horizonte
                      e a palavra essência
                     a negar o que te peço

nesse tempo tinha a febre da ansiedade      estertor da dor errática salpicada pela asa gemente do maligno
minha casa minha fortificação      porto seguro
as sílabas das palavras nos vidros opacos circulavam no vapor depositado da sacra metamorfose de rígidos ossos a enformar a palavra
havia imagens inquietas sem projectos sem um corpo açoitado pelo amor a transformar ideias em versos 

menina dos olhos tristes cinzentos baços e melancólicos      que vês      que te falta misteriosa criança      que corpo te não amou ilha do radioso canto do vulcão
o mundo pode findar amanhã poderia ter sido já ontem sepultado na sensibilidade inesgotável dos gestos perfeitos de amor fazer que deus a alguns dá e a outros nega
                        porque amar
                      não se aprende
                       não se ensina
                             nasce
                              vive
                            e morre 
                        com a gente

desço ao meu inferno      baía da meia-lua onde as folhas das faias murmuram      estrelas nas entranhas rasgadas pela espada do amante visionário      o mensageiro que os deuses enviaram na beleza da mulher     palavra mágica em canção incompleta     
                  quem não sabe amar 
                     não merece viver

a trova de um grilo na doçura de outrora      uma víbora assobia no monte farvão      no mosteiro amontoam-se mágoas      sempre que uma folha cai do plátano no pátio enegrecido deus chora
mãos invisíveis tocam os meus parcos cabelos e eu adormeço sem pensar se vale a pena ou não acordar mais logo
máscara que lacrimeja e sorri na caçada às fêmeas evisceradas      o canto das estrelas ilumina os caçadores furtivos      a cauda de um cão no giestal     o silvado impenetrável
amiga quanto vale o teu peso se penetrar o meu corpo sedento e amarelecer a minha alma
como o sol se retira para os esconderijos da noite assim te retiraste tu

num corcel enfurecido iludi a existência do amor     ah os fantoches do sexo outonal
brindámos com as taças vazias antes de adormecer no ventre do peixe e reunimos com a exactidão possível as sílabas verdadeiras que o pai dos vinhedos espoldrados nos doou em tempos imemoriais
            plumagem maculada do amor fazer

o rastro no trinco da porta      casa sem guardião na alvorada que morre lentamente      amor e ódio daquele que vive só nos teus olhos cinzentos nos teus braços redondos e já mortos

o carinho das rimas matinais debruça-se nos corredores secretos da mansão      um beijo de lágrimas invade a memória enevoada da retina repleta de projectos divinos tão altos e alados como sangue em suspensão que mesmo ferido de morte canta no tempo estático o eterno amor
a primavera aproxima-se como espelho a despontar no limite do universo      o dia está prestes a findar      flores longínquas enviam-me o teu perfume
longo é o caminho e curtos os passos do que não sabe declarar a sua paixão      as montanhas brancas do luar estão cada vez mais distantes      a uma hora da casa do mar penso voltar ao jardim do repouso
novamente esta maldita estação sempre presente nos meus dias      cansaço de viajante sem hora marcada

sentada na sombra de uma velha oliveira cristã brincava com o fio de orvalho refulgente      nas mãos brancas amparava-se o anjo do tempo perdido em meia-vida por viver      com a sua fé na translúcida imortalidade das pedras e dos amores tumulados na eira deserta iria encontrar-se com o seu amante não pousando jamais em vida os pés na terra ingrata

o leito profanado pelo frio está sereno posso dizê-lo com a mesma energia que a cerejeira prenhe dissipa na primavera mal-grado o jugo terreno de que os deuses alucinados e febris se apartam ao sol-posto 
a cidade nasce para o inferno do prazer      estremece no ódio do passado na raiva do presente e no  terror do futuro      acendem-se as primeiras das últimas luzes      o espanto dos olhos roídos pelo enfado alonga-se nas casas de passe      o passe      pergunta-me o fiscal do metropolitano praticamente vazio a penetrar os ossos da terra   
      procuro-o
deve andar por aí como tudo e todos      afinal só quero chegar a casa recostar-me ler um velho poema de um poeta maldito quando ainda faltam tantas milhas cravejadas de espinhos rosados e a salvação se resume em fazer amor para sempre

renasço no seio do desejo      longos são teus cabelos      brancas de mármore tuas faces      pedra ígnea o teu corpo por violentar      musa de Botticelli      a noite é nossa ainda que apartados      nem sempre o que está próximo está presente
a paixão habita a ausência      o amor repartido em vinho e pão      o sexo condensado no amplexo místico da vastidão cósmica

silêncio      a aldeia dormita enquanto um cão ladra     
quando no relógio da torre baterem duas horas as luzes irão apagar-se 
repouso absoluto das almas
na mesquinhez avara da crise existencial  
                  penso nela     
pensar nela é via de mortificação     o apego mata     não deveria pensar em ninguém     em nada       como cigarra que se limita a cantar para a ralé e reis obsoletos      sem apegamento não há lamento não há eu que cinge com sua túnica de imaculabilidade a vida integral     

vigília     sonho     sono profundo

uma guitarra no canto da sala no lugar do velho piano      uma estátua viva na ombreira do pardieiro enevoado      a imagem da vénus doirada estirada no leito     mas é tão nova      um corpo nu retorce-se em sucessivos orgasmos     corpo para te ter      sois tantas      qual escolher
louco é o afecto da ilusão     querer dar ouvidos à razão     o que bem ou mal está 

                  o amor dispensa a moral

levou-ma o fado cruel
                               fria
             em mármore 
                               deitada
                    sem ela
                    já eu não sou
                    desventurado corpo
                    sem vida
                     sem mácula
                     sem sangue
                     coração desocupado
         em pano 
         de fino linho
         levou-me 
         a alma
                      a dela
                      no meu peito
                      dorido
                      para sempre repousa
               já não sou eu
               minha alma perdi
               a dela tenho
               já eu não sou
               sou ela

por ela canto a sua canção      canto as musas as castas esposas dos deuses em loa ao luar
na planura sul do vento o prodígio circunciso dos longos dedos desflorados amarelos de altar em folhas de oiro pintados
dedos fantoches do sono da primavera tombada do corcel imperial
as mãos do homem não as tocam não lhes sentem o odor a árvores soberbas alicerce do mundo com pavilhão armado no abismo dos jardins assombrados
a desgraça força a entrada em portal que se não abre      a esperança nutre-se da cor das flores hospedadas nos descaminhos
musas de corpo em eflorescência      alma que discorre que não corre no muro abandonado ao pedregal da tarde que no leito se estende e murcha com os olhos na mão violeta

saudara a mentira arrostada nos lençóis de fina cambraia       o amante viera longínquo e exausto como réptil em águas turvas      o quarto púrpura 
à luz de círios erectos absorvia o odor do segredo e o desenho fulgurante dos corpos nas pregas enrodilhadas da coberta estampada  decorava as paredes nuas e confidentes      ela adormecera
ele tinha o pensamento preso ao retrato amarrotado no bolso coçado
chovia      os campos tingiam-se de canela      do bolso retirou uma fotografia antiga      sépia do tempo      a dela
nunca a vira      tinha-a lido avidamente nas horas desafortunadas      tantas vezes a lera e relera e a cada leitura a cada verso ou poema no medo da noite profunda e escura adormecera em alma rubra com vívida fotografia a seu lado acamada      ela morrera antes dele ter nascido
fixava a face branca o olhar penetrante o colar suspenso a gracilidade da mão em macia invocação      súplica de coração em chamas com os lábios doados à paixão em vida ausente      como a queria na alma que o peito encerra      túmulo eterno do amor vivo      como a quis como a queria em febre incandescente      sentia a sua presença almejando um amor divino tão forte como a própria morte      loucura de amor
olhava-a com ternura e vivia nela dentro dele apaixonadamente 
                  se alguém alguma vez disser
              que se não pode que é impossível
                 amar assim tão perdidamente
                   morta que se não conhece
                         mente certamente
                           e se não mente
                       é porque já nada sente

não sabia nem sei como lhe havia ou hei-de dizer o que sinto o que sou o que desejo      tão jovem      rebento de árvore celeste a emergir do mais profundo azul com os sonhos mortos de amor a navegarem soltos no corpo ao destino de um beijo alheio
tão jovem no olhar melancólico de pedra talhada no deserto a oscilar entre os meus olhos brandos e os arbustos acesos da colina
boca fina de ninguém      lábios que muito quero que lhe não peço e não sei se lhos hei-de pedir ou não

vê      um mistério vítreo      o cosmos mudo perante dois amantes enlaçados após  o pôr-do-sol
por luzeiro o tacto por instinto o olfacto

partira no último raio de primavera deixando no seu lugar a penumbra do crepúsculo devoluto
na janela emoldurados os montes violáceos enquanto a porta entreaberta aguardava o impensado corpo distante rosado de noites sem sono com a brisa do mar a acariciar a túnica de seda escarlate moldada ao desejo a desfilar no sonho canção de amor

foram tantos os anos que juntos passámos são tão poucas as lembranças do amor que o não era      pergunto-me hoje nesta manhã cinzenta em que nada sinto ou lembro se o que dói é ausência ou tempo em vão desperdiçado

a neve caía      aves brancas no céu nascidas      o desejo ardia nos corpos nus que o gelo derretia
se os olhos nada valem aqueles olhos ora verdes ora azuis no meio da terra nevada eram espelho do coração selvagem e do juramento da amada que se jura mente      amor despido em alma cansada
              as tuas palavras ferem
            são chamas que abrasam
            fogo que arde sem arder
            as tuas palavras mentem
     são cinzas que nas ondas vagueiam
               e ao mar fazem doer
               os teus olhos matam
               ao mais furtivo olhar
             sem remorso ou piedade
               e se assim destroçam
              a minha ânsia de amar
              que finde já a saudade

cai o véu da noite na folha escrita de amor      nela escrevera o nome dela      olhos tristes como pétalas pendentes e folhas caídas      o amor tantas vezes jurado de mãos apertadas e febris era agora jóia furtada      nascera quando a conheceu e morria porque a perdia vendo que a não via
o vento cortante o tempo quente frio a clepsidra vazia no beijo que se nega e não se quer
                    fogo de amor nela extinto
morria porque a não via mesmo sabendo que no coração de uma mulher quer se queira quer não há sempre um qualquer homem a ocupar o lugar por outro homem antes ocupado
na escolha em curta vida e longa esperança enquanto busca o amor que lhe apetece adoece a alma que não encontra o que deseja e se aqui o amor teme ali espera o que a mata      mais lhe valera de tão cansada amar o que se lhe apressa e entre verdes e macias ervas se lhe oferece

cantai raparigas cantai essa triste canção que um poeta à morte escreveu
dai-lhe vida dai-lhe a voz da mocidade e da alegria que o poeta está morto de vivo e a morte não morreu
acenai vossos lenços vossos braços vossa mão branca erguei vossos olhos às estrelas vosso cantar      graciosas dai-lhe a vida que não viveu
o lírio do campo inclina-se sóbrio ao pinheiro nascido da rocha salteada de emoções e com as velhas raízes expostas na margem da lagoa seca
um rio de lágrimas escorre da tua sombra que junto a mim alimenta corrente de tormentos pelo carreiro adventício das orquídeas selvagens
na ramagem do amor que acaba em escuridão
como sorriem teus passos nas escadas de mármore carrara do palácio do diamante      desces      ora desdenhosa ora lassa em imodesto bamboleio corpo voluptuoso perfeito a despertar anseio nos olhos vibrantes da praça      vaidosa soberba orgulhosa os seios quase descobertos oscilam como membros erécteis
corpo apetecido que nunca será verdadeiramente amado antes usado como um qualquer objecto
à porta aguardo que me digas como é divino o nosso amor      como me engano
deus o sabe deus o criou      pelos carreiros luzentes do mundo caminham estrelas de puro cristal dando-se as mãos
- as estrelas também se amam -
o frémito de nossos corpos indemnes silenciou o universo que sua alma às nossas acasalou      deus o previu      deus nos uniu e a mim me puniu

amei-te em sonho      amei-te por toda uma noite em dia já passado      não sei se no sono te amei se foi na realidade que contigo privei      o sonho e a realidade existem e não existem
             mas o amor é sempre verdade

as minhas mãos procuram-te macia pele de meus beijos alienados      nunca te esqueci nem o louco desejo olvido por pouco que seja e se em ti a saudade é dor lamento-te sem panaceia ave de amor magoada lírio a murchar aos pés do calvário vida do amar alheia      lastimo o mal que te fiz o que me fizeste esqueci      queima os meus versos não os leias mais que versos são palavras e as palavras demais      as palavras mentem dizem querer o que não querem      os versos enganam dizem amar o que não amam      fixa o meu olhar espelhado a lágrimas e vê como fala verdade      nele não há falsidade erro engano maldade porque os olhos raramente enganam e se mentem não olham

diz-se que amou e foi amado por corpos e almas     todas sedentas de amor transcendente     amor de carne divinizada      incapaz de enumerar todos as suas benquerenças no diário vermelho vivo da noite flamante      páginas de sensualidade santificada    
deixou-se constranger pelas paixões que a cada outono eram visitadas pela morte capitulando uma a uma como folhas ressequidas
hoje são muito poucas      amanhã nenhumas irão restar      nem as rememorações arrastadas para o promontório da viagem sem retornança
já não ouve o sussurro dos corpos na cidade      isolou-se sofrido em abismos vivos      a neve derrete      as nuvens são vastas      no quarto azul não suam os espíritos
tem uma tormenta de areia cortante no coração de filigrana e na despovoada noite escura extasia-se no rio que ala as orlas da alma
lua nova de camisa banhada a lágrimas
noite pálida de outono      no meu peito o teu coração repousa ao luar      passos de deus a caminhar por campos lavrados      ponho-me a cismar enquanto teus lábios observo      quantos homens não beijarei quando a ti te beijar e penso poisando de leve minha mão nos teus olhos adormecidos que de alma tão casta apenas brota pureza e só pode ser falta ou pecado o ciúme que sinto do teu prazer passado
o vento cai na cama vazia há luzes débeis no corredor antigo de tabique os passos leves e ponderados passeiam-no em todos os quadrantes da alma range o soalho gemente os olhos da mulher do quadro espreitam a insónia da vontade que se alonga às praias distantes imersas na nostalgia de outono há pedaços de corpos objectos mutilados e a podridão da carne suavemente depositados na areia molhada de volúpia
                o vento veio ela não
anda o luar de aldeia em aldeia      boca de luz prateada      varre eiras verdes lameiros charnecas penedias vinhedos pinheirais vales e serras
busca uma boca vermelha de mulher      cansado de beijar a terra a erva morta agita-se à brisa que varre as faces da terra      um rouxinol canta entre pingos de chuva e raios de frio sol      anoitece mais cedo as estrelas não aparecem e os teus lábios escurecem
                    as folhas das árvores
                    são as cartas de amor
                    que nunca escreveste

dia de lembranças
desde petiz que a amava      ele de calções meio esfarrapados ela com vestido feito de chita       lado a lado no frio granito da escola primária      enquanto ele com a manga se assoava já lhe dizia que a adorava e ela sorria dentes brancos olhos puros divina criança      distraído das letras olhos postados no azul das janelas sonhava com casório como vira no verão à porta da igreja tanta era a gente tanto convidado afinal a noiva era a filha do capitão      casamento de rico não é como o de pobre não tem salão nobre tem pátio de moradia não tem casa de banho pobre tem penico não tem três pratos todos de carne nova pobre tem feijão e couves com toucinho e um pedaço de presunto mal defumado      eu olhava-os da minha carteira corroída pelo bicho da madeira tão enamorados no recreio      os caracolitos dela aos saltos os calções dele rasgados os segredos escritos em pedaçitos de jornal o anel de lata prateada dado como prova 
                   que mesmo na pobreza
                sempre há algo que não falta
                   seja paixão seja beleza
vi-os crescer sempre com aquele olhar tão meigo tão discreto tão amante tão amado e vi-os de braço dado à porta da venda      o rapazola e a garota ele empertigado ela encantada namorado e namorada à vista do povo que cismava naquele fado
crescemos      víamo-nos nas longas férias do verão      eu estudava em lisboa      ele trabalhava à jorna como tantos ela cosia para fora vestidos bainhas e arranjos mas quem os via sabia que amor tamanho não havia nas verdes encostas da rude serrania
chegou o dia      manuel foi alistado      era forte e corajoso      fez a recruta e depois sem pena sem dó do que era o amparo de sua mãe velhinha a notícia veio      guia de marcha para os rangers em lamego      daí para a guiné enquanto nossa maria chorava sofrida quer de noite quer de dia pedindo à virgem mão contra mão apertada a clemência      que lhe não tirasse a luz de sua existência o brilho dos seus dias
coisas do demo      na picada sangrenta maldita a granada que o matou quando sobre ela o herói se arrojou para salvar a vida de camaradas
veio para a terra num saco num caixão de aço cruz de guerra no regaço      eu não estava e maria não o viu descer à cova      havia sido internada com mal de amar com dor tamanha      pesar de amor
soube em angola e chorei lágrimas salgadas pelo amigo que jamais iria ter e que já de garoto era senhor e rei do verbo bem-querer
passaram-se meses      chegado do ultramar procurei maria não sei bem porquê para a consolar para a abraçar para com ela chorar      talvez para que me desse um pouco do sofrer que o amante tem e que padece quando perde seu maior bem
fui à taberna fardado      perguntei por ela antes de ser saudado por ter regressado são e salvo      baixaram-se cabeças      o taberneiro mordeu os lábios      os homens que jogavam cartas ficaram calados
o coração de maria não havia suportado tão pesada mágoa
havia-se enforcado numa velha oliveira do povoado
era a sua prova de amor eterno
                      oh amantes de teruel
                          pobres coitados
                     no cemitério olvidados
                     visitei-os e vi sem ver
                     os dois de braço dado
                    em campas lado a lado
                       fiz-lhes continência
                      por alguns minutos
                         como se deve 
                       a um grande herói
                     e a uma santa mulher
hoje tenho saudades do tempo em que Manuel e maria enfeitiçados se beijavam nos fundos da escola      beijos que ninguém via mas que cada um sentia como calafrio que a espinha percorria e sinto raiva inveja pena na alma que dói por nunca ter tido amor como o seu e de não ter sido herói como ele e de não ter conhecido mulher santa como a dele 
                      que deus me perdoe
                         agora e quando
                       nos seus sepulcros 
                     lado a lado plantados
                          de braço dado
                         rezo ajoelhado
                           ave-marias
                         por suas almas
                        e meus pecados



***

Sem comentários:

Enviar um comentário