ANTIPOESIA

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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

FÉ NA MENTE VERDADEIRA



***



nada há de intrincado na grande vereda
mas é essencial evitar escolher

                           não tem nada de difícil
  o grande caminho não é difícil de atingir
                    desde que evitemos preferir

                 na natureza do caminho-sem-fim está a emancipação psicológica
         que tem por estorvo a mente objectiva
                  - não a mente verdadeira - 
mente coberta de pensamentos
                                       emoções
                                              sentimentos
e material inconsciente que condiciona e inviabiliza a visão purificada da realidade

não nos aliviamos de todos esses condicionamentos
                bem pelo contrário         analisamos
                                                interpretamos      
                                                  comparamos     
                                            confrontamos                                                
                                                       julgamos   
                deturpando os factos
passamos uma vida de terríveis rotinas a fazer escolhas condicionadas pelo nosso cérebro mesquinho e estreito

não podemos aclamar tudo o que nos parece aprazível
fonte de alegria ou felicidade e desprezar o que nos repugna ou causa sofrimento e pesar
temos de aceitar a vida como um todo
não podemos aceitar o que nos alegra e repudiar o que nos faz sofrer        azar e sorte
assim como não podemos adiar ou evitar a morte
não podemos exterminar a parte da nossa vida que queremos recusar
mesmo que o intentemos fazer apenas a conseguiremos recalcar
remetendo-a para o domínio do inconsciente
e os recalcamentos estão sempre preparados para entrar em acção redobrando as suas forças a cada exteriorização ao nível do consciente

na morte tal como na vida não podemos fazer escolhas        quer queiramos quer não        ela        a morte         levar-nos-á na nossa integralidade
essa a verdade

                a vida não é diferente da morte
        para viver é necessário morrer todos os dias
                       em todos os instantes

especulamos sobre o livre arbítrio
até que ponto este se constitui como uma realidade
as nossas decisões são tomadas com base nos nossos condicionamentos de milhares de anos
- vivemos sobre os ossos dos nossos antepassados -
da nossa educação
do meio social onde estamos inseridos

precisamos de ver e ouvir a realidade contingente        relativa        delimitada pelos nossos sentidos
vê-la tal qual ela é na sua aparência
sulcando o campo árido para que a penetração na sua essência não seja uma quimera    

                    libertos do amor e do ódio
              aparecerá com todo o seu resplendor 

se nos libertarmos do ódio e do amor o caminho emergirá em toda a sua luminosidade e clareza

ódio que todos cremos exterminar

e o amor        perguntamo-nos
criámos conceitos falsos e ilusórios de amor ludibriados por nós mesmos e por induções espúrias
é prazer        desejo        medo       ódio        ciúme        posse        ambição        apego        dominação
uma longa e pesada cadeia de argolas de aço que em vez de unir dividem
é a angústia
o iminente sentimento de perda da aquisição passageira
é triste e contente
                              extasiante e depressivo
                              riso e lágrimas
                              memória do bom e do mau
         do que é agradável e do desagradável
                          dor psicológica

é deste amor que temos de nos desembaraçar e não do amor que não tem contrário
o amor que é sensibilidade e paixão
que incide sobre pessoas e coisas
observadas como são 
                               indiscriminadamente
de forma espontânea e gratuita 
                     que não é exclusão
                      bênção derramada
                sobre a totalidade da vida
                     nascida do silêncio
             sem os limites do tempo-espaço

o amor popularizado e propagado
tal como o conhecemos
e o ódio devem ser totalmente ultrapassados caso queiramos ter seguro acesso ao caminho  

se nos afastarmos dele nem que seja por um segundo será como um amplíssimo despenhadeiro entre o céu e a terra        se nos afastarmos dele nem que seja por um milímetro
se por um instante que seja capitularmos na tentação da escolha ficaremos arredados da verdade
            separação irremediável
se nos desviarmos do caminho optando e discriminando
        céu e terra ficarão infinitamente distantes 
quando penetrarmos o momento em que os sentimentos findam
        em que as visões desaparecem
        e em que a mente está nua e limpa de todas as poluições
estaremos a dar um diminuto passo no sentido do entendimento        mas não nos podemos quedar por aí        temos de ser perseverantes mantendo sempre a mente pura e livre
existindo a mais pequena das hesitações nunca transcenderemos o mundo

se quisermos atingir o caminho não podemos estar nem a favor nem contra nada
se quisermos encontrar a mente verdadeira não podemos ter opiniões sobre nada        a favor ou contra coisa alguma
nem a favor nem contra nada        como é difícil

                     o estar a favor ou contra
                   enraíza-se nas comparações
                   interpretações e julgamentos
                     e nos juízos inconscientes

                a disputa entre o a favor e o contra
                 é a autêntica moléstia da alma

este conflito entre o que gostamos e o que não gostamos        entre o que perfilhamos e o que repudiamos
é a doença da alma
é o que faz com que nos afastemos decisivamente do caminho


se não divisarmos a essência das mil e uma coisas
o espírito não terá paz

a importância da profunda significação das coisas
se não formos além das aparências penetrando na essência das dez mil coisas nunca conquistaremos a serenidade
nunca desfrutaremos da conciliação da mente que é inutilmente perturbada
e para termos paz é inevitável que os desejos se desvaneçam
os desejos desvanecem-se quando o mundo deixa de acorrentar os nossos afectos e sentimentos
quando estes desaparecerem a mente verdadeira assomará à superfície das águas plácidas com todo o seu esplendor


tão perfeito como a vastidão do espaço ao caminho nada lhe falta nada está fora dele
é completo        tão completo quanto o espaço infinito
          englobando o cosmos
o espaço infinito é vazio como a mente verdadeira as coisas preenchem-no
mas em essência ele não se apodera delas
daí a sua perfeição
ao caminho nada falta e o caminho nada exclui
           nada lhe falta e nada está em excesso
por muito que queiramos rejeitar o que não gostamos se entrarmos na vereda teremos de o fazer carregando tudo o que efectivamente somos e não apenas o que nos agrada
a acolher e a enjeitar as realidades não somos como devemos ser
quando aceitamos ou rejeitamos não vislumbramos a verdadeira natureza das coisas
se escolhermos partes do caminho perderemos para sempre a ciência da sua essência
se hospedarmos e declinarmos algumas das múltiplas facetas do nosso ser deixamos de ser o que é
se nos decidirmos pela aceitação ou rejeição das coisas nunca veremos a sua verdadeira natureza
                o caminho há-de excluir-nos

ou somos o que somos ou optamos por falsear a nossa existência
se a falsearmos
se rejeitarmos o que não apreciamos em nós mesmos
recalcando-o ou sublimando-o
não teremos lugar no carro de nove rodados que conduz à libertação

alcançar o mundo submetido à causalidade     sandice
aderir a uma inanidade que exclua os fenómenos        idiotice 
não podemos viver apenas atidos às coisas externas nem acorrentados à impressão de despojamento interior
esvaziados interiormente        harmónicos exteriormente
                     estaremos como devemos estar
                     seremos como devemos ser
quando perseguimos a parte da existência que nos agrada
           que nos causa prazer e alegria
           estaremos sujeitos à decepção
           que sobrevém ao seu descaminho
         - depois da bonança a tempestade -

               sim à vida na sua totalidade
                  e dela não excluir nada
                     que nos desapraza

de nada nos favorece
sentarmo-nos num recanto
em cavado mutismo
num oco pleno
que rejeite o mundo que nos abrange
a meditação deve abarcar tudo        ser consciência constante do que se passa em nós e ao nosso redor
sem interpretações
comparações
ou julgamentos
                       sem escolhas 
não podemos eliminar o mundo
com toda a sua violência
                                      ódio
                                      ganância
                                      hipocrisia
                                      inveja

quando o espírito está em paz na unidade a dualidade dilui-se 
na percepção do mundo na multiplicidade dos fenómenos o uno manifesta a sua presença
                      
                  o múltiplo está no uno
                 o uno contém o múltiplo -
                        indissociáveis 

se o espírito permanece em concórdia no um a nossa visão é corrigida desaparecendo a dualidade
              visões falsas que se ausentam 
da tacanhez do cérebro e das suas adulterinas racionalizações 

quando a acção é sustida e a passividade domina
                     torna-se mais activa 
se nos esforçamos no sentido de parar a actividade para alcançar a passividade estaremos a regressar à actividade        passividade que é o mesmo que o não-agir        passividade que não se identifica com a inércia mas com uma atitude de independência relativamente à acção
diz-se sim ao que é 
não nos envolvemos emocionalmente com os acontecimentos
                subjugamo-nos à realidade
              à verdade e se assim se quiser
                       à vontade de deus

passividade dos monges de tai-zé        
senhor
           estou aqui à espera de nada
o monge não pede
                           não busca
                           não quer
                           nem recusa
             não quer não sabe e não tem

se permanecermos no movimento ou na quietude  poderemos conhecer a unidade        podemos ou não 
o movimento
o tumulto da vida exterior com todas as suas alegrias e tribulações
a vida interior dos pensamentos
                                  sentimentos
                                             desejos
                                                  apegos
                                                      e afeições

a quietude
os métodos de meditação
a pura não-acção
não nos dão acesso à unidade

enquanto não ultrapassarmos esta dualidade ser-nos-á impossível conhecer o um
enquanto permanecermos apenas no movimento ou pelo contrário na quietude nunca conheceremos a unidade
se intentarmos parar o movimento remetendo-nos à quietude a tentativa de estar quieto aumentará o movimento
temos de poupar as nossas energias no meio de todas as ocorrências angustiantes do mundo
se o fizermos transformaremos o inferno no céu
se não assimilarmos a unidade do caminho movimento e quietude irão conduzir-nos ao insucesso 
precisamos de compreender a unidade do caminho
a profunda significação das coisas que nos conduz à visão da unidade
se nos quedarmos pela meditação silenciosa nunca a alcançaremos
se nos apegarmos ao mundo fenomenal também não a alcançaremos
o caminho não nada exclui
não podemos opor a meditação e a sua serenidade à vida e a toda a sua agitação        fazendo-o cairemos na angústia do conflito e o conflito é sofrimento
se nos desligarmos do facto ele irá perseguir-nos
se perseguirmos o desocupado ele desparecerá
se nos tentarmos afastar ou negar o mundo dos fenómenos estes exercerão sobre nós uma grande atracção
se negarmos a realidade das coisas ou afirmarmos o seu vazio acabamos sempre por perder a sua realidade 
quanto mais recusarmos o mundo mais ele nos há-de acorrentar
               temos de o observar e escutar     
quando buscamos o vazio este esgueira-se por entre os nossos dedos como água corrente
                      
                       o nada não nasceu
                 não principia e não tem fim
             não tem qualquer causa é o tudo
              se o desejarmos ele repele-nos

         não apegados ao mundo dos fenómenos
                 sem qualquer apego ao vazio
             podemos encetar o nosso caminho


            falar e racionalizar sem cessar
          a montanha que oculta o caminho
quanto mais dissertarmos
quanto maior uso dermos à razão
em vez de nos aproximarmos do caminho afastamo-nos
as palavras são pensamento e o pensamento é o fruto da actividade do cérebro
o cérebro está limitado pelo tempo-espaço
não temos palavras para descrever o inominável        mil e um nomes        os nossos pensamentos nunca irão atingir a essência da mente verdadeira
do absoluto omnipresente
há que calar as palavras        há que silenciar a reflexão        todos os lugares estarão à nossa disposição 
quanto mais usarmos o intelecto criador de hesitações e conflitos psicológicos mais retrocederemos no caminho
suprimida a acção do intelecto
isso operará uma revolução na nossa consciência e todos os lugares estarão à nossa disposição na caminhada sejam eles exteriores ou interiores
não haverá nada que não possamos conhecer

retornando à origem colheremos o sentido correndo atrás das aparências afastar-nos-emos do princípio
existem os fenómenos interiores e os exteriores podemos entrevir as afigurações mas para lá delas está a sua síntese 
para atingir a compreensão temos de ir além da aparência
atingir a causa
não nos atendo unicamente à consequência
a essência das coisas e dos seres não pode ser atingida pela reflexão por mais profunda e lógica que seja
nasce da quietude compreensiva da mente do quietismo que advém da observação e da escuta e não da reflexão
a realidade relativa aparentemente é múltipla por limitada pelos sentidos
se por um breve instante nos olharmos em autoconhecimento
ultrapassaremos o nada das coisas deste mundo 
depois de atingirmos o vazio
a essência das coisas do mundo
não podemos parar no caminho
temos de ir mais longe do que esse vazio
                  
                      lugar onde tudo é um
                       aparência e essência
                             múltiplo e uno

se este mundo nos parece sujeito a transformações tal é consequência das nossas visões falsas
neste nosso mundo tudo está em movimento em constante transformação 
nada é permanente e estável
a visão do mundo e dos dez mil objectos é relativa depende dos nossos sentidos e dos nossos condicionamentos
um mundo em transformação constante não nos transmite qualquer segurança
não podemos ter paz quando intuímos que após-túmulo vingará o nada
mundo onde há um tempo para tudo        para nascer e para morrer
haverá algo para além desta impermanência        perguntamo-nos
algo que não pereça
permanente
que não tenha início nem fim
não há tempo no que não tem começo nem fim e o que não principia nem acaba é eterno

para quê buscar a verdade
terminemos com as visões contrafeitas
quando se observa e escuta numa atitude passiva compreendendo todos os movimentos do pensamento o que é falso apresenta-se aos nossos olhos e à nossa mente sem hesitações        daí irromperá do nada a verdade
do mesmo modo entendemos de imediato o que é falso        o que não é verdade

                       conhecendo o falso
          dissipadas que estejam as falsas visões
                     a certeza sobrevém

não        não à dualidade
não ao que gostamos e àquilo de que não gostamos
o que julgamos bom e o mau
o mal e o bem
se nos estabelecermos na realidade esta dualidade desvanece-se
o impermanente transforma-se numa via de acesso ao que é permanente
carecemos de compreender essa dualidade e os conflitos a que conduz
o conflito psicológico angustia-nos e não nos deixa progredir no caminho
temos de evitar toda a dualidade
se o sim e o não existem o espírito perder-se-á
sim que deve ser um sim absoluto
                                                 e não relativo
sim ao que gostamos
                               e ao que não gostamos
sim à felicidade
                       e à infelicidade
dizer sim       sim à vida sem réstia do seu contrário não
    eis a questão
caso exista um vestígio
                                    disto ou daquilo
                                    do sim ou do não
                                    do certo e do errado
a mente perder-se-á em conflitos intermináveis 

como consequência da unidade        a dualidade
              não nos apeguemos à unidade 

isolamo-nos do mundo e pela meditação penetramos no âmago do um
a paz e a serenidade invadem-nos e aí apegamo-nos a esse um recusando a multiplicidade dos fenómenos externos
enquanto não resolvermos as nossas questões com o mundo dos fenómenos        com as dez mil coisas não conseguiremos estabelecer-nos na unidade

mas o apego ao um também é danoso
ao espírito unificado que não se apega ao um nada há que não seja pacífico
o espírito unifica-se quando por uma atenção compreensiva penetrou todos os seus recantos
mesmo os mais recônditos
onde estão acumuladas as reminiscências do inconsciente
deixa de haver consciente e inconsciente
o material psicológico contido no espírito está livre de mecanismos psicológicos tais como o recalcamento a sublimação a compensação ou a substituição
o espírito liberta-se mas não se apega ao um liberta-se apenas dos seus condicionamentos e conflitos que são sofrimento psicológico
liberto e para além da dualidade        dos opostos        podemos suportar com uma enorme energia e paz todas as provações e tragédias que são consequência directa do nosso nascimento neste mundo
          doença
          fome
          velhice
          morte 
quando o espírito se liberta sem que busque seja o que for
sem recusar o sofrimento psicológico que advém da existência neste planeta de tantos predadores
as dez mil coisas são inofensivas
elas não desaparecem como num passe de mágica
mas mesmo existindo deixam de nos fazer sofrer psicologicamente
porque se uma coisa não nos ofender é uma coisa que não tem existência como o presente que não sendo aceite regressa ao doador
o mundo está em mudança constante        nada há de estável
não podemos permitir que as coisas do mundo nos ofendam
se não nos ofenderem permaneceremos em paz         
 - onde não há ferida não há necessidade de cura -
se nos mantivermos na realidade estaremos afastados das mutações constantes e das suas consequências

aniquilar os pensamentos discriminatórios
a mente velha deixa de existir
se os objectos do pensamento desaparecem o fundamento do pensamento desaparece
se a mente desaparece os objectos também desaparecem

as coisas são coisas como realização da mente        a mente é o que é por causa das coisas
quando ultrapassarmos todas as dualidades seremos todas as coisas
objecto e sujeito não serão mais do que uma única coisa
por isso se diz que o sábio tem por corpo o universo inteiro e por não ser nem ter nada é todas as coisas

evitemos distinguir o subtil do grosseiro
poderemos tomar partido nas coisas        disto e daquilo        não 
fazer escolhas        não        
porque na sua essência o caminho é vasto e sem margens        nem é fácil nem difícil
evitemos todas as visões medíocres        as hesitações oriundas dos sentimentos negativos
se queremos caminhar rapidamente
os nossos passos tornam-se lentos
temos de ir além do ensinamento        mais além        sempre mais além        para além de todos os horizontes

não podemos carregar connosco nesta vida as visões mesquinhas que nos são impostas
                                                pela rotina da vida
                                               pelo nosso egoísmo
                                                          ciúme
                                                          inveja
                                                      egocentrismo

necessitamos de uma revolução na consciência

queremos atingir o despertar
                                          a iluminação
o desejo absorve-nos
e corremos com o tempo na sua busca
quanto mais depressa julgamos ir mais lentamente vamos
o caminho para a senda começa aqui e deve ser percorrido passo a passo

              temos de compreender o mundo
                         e o nosso interior
                     ser um com o cosmos

sem nunca olvidar
que o desejo de iluminação consolidado em apego é um obstáculo ao despertar

se nos apegarmos ao caminho iremos perder-nos e entraremos num trilho sem retorno
evitemos apegar-nos a qualquer crença dogma ou ensinamento para atingir a verdade        seja qual for a crença religião ou doutrina não devemos agarrar-nos como náufragos aos seus dogmas ou regras        isso causar-nos-á ansiedade angústia
            um profundo sofrimento psicológico
qualquer ensinamento genuíno deve avisar-nos dos perigos que corremos quando nos apegamos às suas rígidas instruções que intentam perscrutar a verdade              

deixemos que a grande via percorra o seu caminho
na essência nada se move
na aparência tudo se move
nada permanece no mesmo lugar
ser        apenas ser
ser-se aquilo que se é e ir além de todos os futuros

obedecer à natureza das coisas é dizer sim à vida seja o que for que ela nos traga
quando dizemos sim à vida
caminhamos de acordo com a via
libertos do sofrimento
o nosso penar não tem única e exclusivamente como causas factores internos
                                           como a doença
                                           a fome
                                           a velhice
                                           a morte 
tem também causas endógenas
                                           o conflito
                                           o medo
                                           o desejo
                                           o apego

dizer sim ao que é e ao que efectivamente somos
não ao que queiramos que seja ou ao que queremos ser

os pensamentos estão acorrentados quando se sucedem ininterruptamente
quando fazem com que o nosso cérebro esteja absorvido pela sua ruminação
em regra é o passado que nos atormenta
passado que se projecta nas angústias do presente e se propaga como medo do futuro

                  libertemo-nos do passado
                   morrer para o passado
                       só o agora existe

para compreender o agora
temos de nos libertar
                               dos condicionamentos
                               dos conflitos
                               do medo
                               do tempo
                               e do sofrimento 
só assim viveremos o agora e só morrendo para o passado saberemos o que é morrer        o que é morrer fisicamente

o desassossego enfada a alma
poderemos escolher entre isto e aquilo        não
o conflito esgota-nos        exaure as nossas energias        tem o efeito da dúvida permanente ruminada pelo intelecto        esta absorve-nos        não nos liberta para a vida e muito menos para o caminho
se o conflito cessar se deixarmos de escolher isto em detrimento daquilo a paz envolver-nos-á
infelizmente vivemos continuadamente no conflito e isso não é viver

se desejarmos adoptar o trilho do veículo único não poderemos amparar nenhum preconceito contra os objectos dos seis sentidos 
o veículo único é o transporte de que dispomos na nossa progressão na via        o único transporte
o sexto sentido gera o pensamento
as coisas são o que são 
de nada nos serve criar barreiras contra as mesmas
assim como julgar os pensamentos que podem surgir
ver e escutar os pensamentos        apenas isso        sejam eles o que forem
                                  mesmo os mais perversos
                                  os mais vergonhosos 
se os escutarmos atentamente
numa vigilância passiva
acabarão por se dissipar        sem esforço
sem que para isso tenhamos de despender energia
quando já não detestamos os objectos dos seis sentidos estamos em condições de atingir a iluminação
quando as dez mil coisas forem idênticas perante os nossos sentidos
quando as olharmos e escutarmos do mesmo modo
é porque a iluminação está prestes a desabrochar

não é assim que nos habituámos a reagir
estamos sempre a tomar partido
a gostar e a detestar
deste modo negamo-la e inviabilizamos o nosso despertar

o sábio encontra-se em paz        age sem se envolver com a acção        sem se comprometer
não se esforça ingloriamente para atingir objectivos
o louco tropeça nos seus próprios passos        é escravo de si mesmo
somos nós os responsáveis pelo sofrimento psicológico
as coisas não conhecem distinções        é o nosso apego fruto de comparações e julgamentos que as cria
há uma parte da nossa vida que nomeamos como parte feliz e outra que nomeamos como parte infeliz
a oposição que geramos entre as duas nasce dos nossos julgamentos
queremos a repetição dos eventos felizes dos momentos alegres das experiências que nos satisfazem e recusamos repelimos e recalcamos o que nos torna infelizes
desejamos a repetição do agradável e o desejo vai-se transformando num apego consolidado

os nossos julgamentos são subjectivos
o que é bom para uns pode ser mau para outros
     - o bem e mal caminham de mão dada -
nada é bom e só bom e mau e só mau
o peixe que eu hoje comi foi um bem para mim e um mal para ele
a chuva que alimenta os campos cultivados é boa para o agricultor e má para o banhista
a doença é má para o doente e boa para o médico
a morte má para o morto e boa para o cangalheiro

se nos servirmos do espírito na perspectiva da dualidade
             do que é bom ou mau para nós
             do que nos é favorável ou não
             mantendo-nos na ilusão
é o mais grave de todos os desvarios

se vivermos na dualidade nunca acederemos à realidade suprema

as ilusões são provocadas por visões deturpadas ou falsas
se obtivermos a iluminação súbita ainda que imperfeita
fará com que toda a aversão desejos e apegos desapareçam
todas as oposições são fruto do intelecto
da ignorância
é no intelecto por via da actividade mental condicionada e egocêntrica que se geram os conflitos        e os conflitos são sofrimento        e onde houver sofrimento não pode haver paz nem vislumbre do caminho para o despertar

a dualidade é uma visão em sonho de flores que percorrem o céu 
tolice tentar capturá-las 
basta-nos ser
se formos aquilo que realmente somos
se não aspiramos a ser algo mais daquilo que somos por via da ilusão
– hoje não sou bom mas amanhã serei        hoje não tenho tempo para pôr em marcha uma verdadeira revolução na consciência mas amanhã terei        hoje sou pecador mas vou fazer tudo para que a partir de amanhã seja santo –
não teremos necessidade de suster as visões e concepções falsas
já não pensamos em ganho e perda
- no ganho e na perda está contido o ter -
o ser não se identifica com o ter        ser        simplesmente ser

não pensamos no verdadeiro e no falso
                       que são concepções subjectivas
todos têm ou aspiram à sua verdade
todos nós estamos preparados para assumir e interiorizar o que é falso
nas religiões onde cada crente aceita os seus dogmas como verdades indiscutíveis
na política onde a todos assiste a razão
no corporativismo
nos comentadores da comunicação social
genericamente na estupidez humana
estupidamente parcial

não-dualidade
se observarmos
        os nossos pensamentos
                               sentimentos
                                          emoções
e o mundo dos factos que nos rodeia
esta observação fará cessar a ilusão
o sonho
que se contrapõe à visão da realidade
tal qual ela é

quando o espírito não se dispersa em si mesmo e no mundo exterior
                     as dez mil coisas são apenas uma
tudo é um
o um que se manifesta aos nossos sentidos com um número incalculável de formas
               um que será uma energia infinita

e o mistério        o mistério das coisas
depois da aparência
quando penetramos na sua essência e percepcionamos a unidade
a causalidade desaparece

                o um não teve início nem terá fim
                           ninguém o criou -
                  o um não tem qualquer causa

observemos as coisas com equanimidade
aí existirá liberdade de espírito
ver as coisas tal qual elas são e penetrar na sua essência
compreender a sua unidade no que está para além do espaço
              do tempo
                          e da causalidade
 porquê buscar
                     o porquê das coisas
estruturados na razão acabamos por cair no domínio das
              comparações
                             da interpretação
                                           do julgamento
quando observamos vemos e escutamos num estado de imparcialidade e por via dessa auscultação ultrapassamos os portais da aparência penetramos sem qualquer esforço ou racionalização na essência das coisas
se estiver deprimido ouço atentamente esse estado de espírito
se estiver com medo escuto esse medo com toda a atenção 
ao escutar atentamente sigo o movimento desses sentimentos e emoções com serenidade e aos poucos percebo que eles se vão desvanecendo
o porquê não é importante
importantes são as coisas em si
                                           os pensamentos
                                           os sentimentos
                                           as emoções
                                   e o que na realidade somos

quando parados nos movimentamos o movimento pára
quando em movimento paramos deixa de haver paragem
paradoxal        a dualidade        paragem        movimento
observemos as coisas 
parecem-nos paradas mas estão em movimento
                 no universo tudo é energia
e nos místicos a existência de um ser em si mesmos onde reina a imobilidade suprema
imobilidade que não é o contrário do movimento
tal como um pião ou as hélices de um avião
quando a criança o lança vigorosamente gira tão rapidamente que parece imóvel
se tentarmos aprisionar a via em movimento ela torna-se quietude
se tentarmos agarrar a via na quietude ela torna-se movimento
é como um peixe escondido numa nascente que rola nas escarpas saltando nas ondas e que dança sem cessar
independente

as leis e os regulamentos são abrolhos no caminho
                  obstáculos ao despertar
      as leis são pedras de tropeço no caminho

devemos caminhar sozinhos sem os grilhões de regulamentos que possam estorvar a libertação
e menos ainda dos dogmas impostos pelas religiões

                 temos em nós uma preciosidade
                         que tudo contém
                    e somos livres de a usar

não precisamos de esgaravatar no exterior
incumbe-nos experimentar em nós o que é sagrado e o que o não é
                       o errado e o certo
não nos preocupando com o julgamento dos outros 

quando o espírito penetra a essência do mundo dos factos e aí se estabelece
o intelecto tranquiliza-se
                     estará atento
              numa vigilância passiva
 terá o seu movimento próprio na quietude do um

                  as nossas dúvidas
  os conflitos gerados entre o a favor e o contra
            são as maleitas da alma

              o querer e o não querer
             as opiniões contraditórias
              minam o nosso intelecto

se no caminho varrermos as dúvidas
nasce a fé        fé esta que pela sua própria verdade
não necessita de ser afirmada ou demonstrada

no caminho não há passado
as recordações são fardos de mato enterrado nos abismos
o passado está morto
que interessa o que fomos
o que fizemos ontem
nos últimos anos
                estamos a florescer em bondade
          morrendo para o passado estamos vivos
       vivendo cada acontecimento como algo novo

        se a nossa memória viver morreremos
                   se morrer viveremos

quando penetramos a essência das coisas tudo se torna luminoso
quando observamos a realidade sem recurso ao intelecto ela ilumina-se
quando nos observamos e observamos o mundo que nos rodeia numa vigilância passiva a essência do observado manifesta-se sem que para tal sejamos obrigados a esgotar-nos espiritualmente com exercícios e preces que obstam ao caminho a percorrer na direcção do absoluto
o absoluto não é um lugar mensurável pelo pensamento
                 o conhecimento não o pode sondar 
o intelecto e o pensamento estão limitados pelo tempo-espaço
pode o finito
                   o limitado 
alcançar o infinito
                          o ilimitado
                          o absoluto
a mente dual nunca o conseguirá fazer por mais especializada que seja ou se torne
só a mente desocupada do seu conteúdo
a mente onde deixou de existir dualidade
onde não há eu e vós        eu e os objectos
poderá tocar o um

negada a dualidade só existe um
e basta-nos dizer
não-dualidade        não-dualidade
todas as coisas são idênticas
todas as coisas como expressão do absoluto

apesar de tudo o liberto-vivo não fica limitado na sua capacidade de as distinguir
                                             na aparência
                                             ou natureza 
na não-dualidade não há exclusões
não há nada que não esteja contido no um
místicos        iluminados        liberto-vivos        os despertos        todos em toda a parte do planeta independentemente dos seus credos e fé chegaram à conclusão de que não há nada que não esteja contido na não-dualidade
nem ausente nem presente
o absoluto está ausente e presente
mesmo que o não consigamos ver ele está presente        basta que apuremos a nossa visão
que digamos não-dualidade para que ele esteja em toda a parte diante dos nossos olhos

o instante não é tempo
o instante transcende
                                o passado
                                o futuro
                                e o próprio presente

                   o instante é eternidade
         nele o tempo esvai-se        desaparece
                         o eterno agora

o que é infinitamente pequeno é como o infinitamente grande e são iguais quando a visão não tem limites
quando não nos apegamos aos objectos o infinitamente pequeno é como o infinitamente grande
quando a nossa observação já está purificada e se expande na mente verdadeira
o infinitamente grande é igual ao infinitamente pequeno
o infinito está sempre presente
a mais pequena partícula de um átomo é tão infinita como o todo        o um
a existência é a não-existência
a não-existência é a existência
quando navegamos pelos mares a onda é o oceano
mas o oceano também é a onda que se forma pela acção do vento
a realidade é o que é
não o que egocentricamente queremos que ela seja
temos de o compreender
o um manifesta-se pelas dez mil coisas e pelos dez mil seres
todas as coisas são uma e o todo é todas as coisas
o cosmos é um organismo que tudo abrange e o que é abrangido é também o próprio cosmos
se o compreendermos para quê perseguir o conhecimento perfeito
sejamos simples como as flores dos campos e as crianças nas suas brincadeiras
o que é que a filosofia
                                a teologia
                                e a ciência
                                nos trouxeram
exíguos conhecimentos que não resolvem nenhum dos mistérios mais apetecidos
até uma atitude de sobranceria inqualificável e de intolerância
a douta ignorância

o avizinhamento ao absoluto
não pode ser obtido por intermédio da especulação e da experimentação
para quê atormentarmo-nos com mistérios


somos dualistas        eu e a minha fé
no entanto
todos fazemos parte da mente verdadeira 
é nessa mente que temos a nossa origem e é a essa mesma mente a que um dia voltaremos

pacificados em toda a parte        livres para dar vida
para usar a espada da vida e a da morte

no encontro com a mente verdadeira passamos para além de antes do nascimento e de depois da morte
o atalho da iluminação é suspender o presente e vivenciar directamente o estado anterior ao nascimento        situação que precede a formação do embrião antes de quaisquer acontecimentos se tornarem distintos
prévio à cisão da totalidade 
quando o alcançarmos seremos como um dragão na água ou como tigre nas montanhas
meditação suprema onde a mente se clareia e penetra todo o universo

e quando chegarmos à fronteira que demarca a vida da morte
quando elas se cruzam mas não se confundem
partiremos
                serenamente
                imperturbavelmente

            retornando à mente verdadeira
                e não existirá para nós
           mais passado presente ou futuro
                  nem horror vacui
                  nem horror nihili





Versão JMA


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